A Guerra dos Judeus contra os Romanos – Parte 8 – A conquista da Fortaleza Antônia

Os romanos construíam neste tempo plataformas e rampas para escalar o terceiro muro, de maneira que toda a vegetação ao redor de Jerusalém foi devastada: “Onde outrora havia bosques e árvores frondosas, jardins deliciosos, não havia agora uma única árvore, e não somente os judeus, mas os estrangeiros, que antes admiravam aquela formosa parte da Judeia, agora não seriam capazes de reconhecer, nem ver os maravilhosos arrabaldes daquela grande cidade, convertidos em terrenos abandonados e silvestres, sem que tão deplorável mudança os fizesse derramar lágrimas. Foi assim que a guerra de tal modo destruiu uma região tão favorecida por Deus, que já não lhe restava o menor vestígio de sua beleza antiga e podia-se perguntar em Jerusalém, onde então estava Jerusalém.” (Ibid 433)

A Fortaleza Antônia veio por fim a cair nas mãos dos romanos, e desta forma, muitos dos que lá se refugiavam fugiram para o Templo, em cujas portas travou-se uma intensa batalha, com tanta gente, e por causa disto, num espaço tão apertado, que só era possível combater usando a espada, porque dardos e flechas eram inúteis por causa da proximidade de uns e outros. Josefo conta que combatiam pisando em cadáveres, e que esta batalha foi travada no escuro, desde as nove horas da noite até o amanhecer.

Tito mandou destruir os alicerces de um lado Fortaleza Antônia de maneira a possibilitar a entrada de um grande contingente de soldados.

Nesta altura da situação, os judeus que conseguiam fugir da cidade e se entregar aos romanos eram bem tratados por estes, e como já fosse grande o seu número, Tito mandou que fossem mostrados a seus compatriotas, para que vissem que estavam em condições dignas e assim pudessem também proceder da mesma forma. Mas não havia hipótese disto acontecer, pois os sediciosos matavam a quer quer que ousasse tentá-lo.

Antes de investir contra a cidade, Tito, que desejava preservar o Templo, mandou novamente Josefo para apelar ao bom censo e pedir sua rendição incondicional. Mas foram vãos os apelos, e assim resolveu atacá-los à noite. Tito comandou pessoalmente o ataque a partir da Fortaleza Antônia.

Por causa da surpresa, os judeus atacavam indistintamente amigos e inimigos, por causa da escuridão da noite. Josefo diz que os romanos podiam distinguir os campaneiros do inimigo porque eles combatiam em grupos, apertados uns contra os outros, cobertos com seus escudos e se serviam, para se reconhecer, da senha que lhes fora dada. Pelo lado dos judeus mataram-se mais entre eles próprios do que pela espada do inimigo. Este combate cessou somente ao raiar do dia com muitos mortos de ambos lados.

Tito ordenou então que a Fortaleza Antônia fosse destruída até os alicerces para abrir espaço para a entrada das legiões. Josefo conta assim o início da destruição do Templo: “Os judeus, enfraquecidos pelas perdas que haviam sofrido em tantos combates, vendo que a guerra se acendia cada vez mais e que o perigo de que o Templo estava ameaçado crescia sempre, resolveram destruir-lhe uma parte, para salvar o restante; do mesmo modo que se cortam os membros de um corpo atacado de gangrena, para impedir que ela passe adiante.

Começaram por incendiar aquela parte da galeria que o unia à Fortaleza Antônia, do lado do vento norte e do ocidente, e derrubaram depois quase vinte côvados e foram assim os primeiros que empreenderam a destruição daquela soberba construção. Dois dias depois, vinte e quatro de julho, os romanos incendiaram a mesma galeria. Depois de terem arruinado uns catorze côvados, os judeus derrubaram o restante e continuaram assim trabalhando na destruição de tudo o que podia ter comunicação com a Fortaleza Antônia embora tivessem podido, se quisessem, impedir aquele incêndio. Eles consideravam sem se inquietar o curso que o fogo tomava para dele servir-se em seu proveito, e as escaramuças se faziam todas em redor do Templo. (Ibid 452-453)

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A Guerra dos Judeus contra os Romanos – Parte 7 – A fome em Jerusalém

A situação chegou a um ponto inimaginável de sofrimento; Josefo a descreve assim: “A fome que sempre aumentava, devorava famílias inteiras. As casas estavam cheias de cadáveres de mulheres e de crianças, e as ruas, de corpos de anciãos. Os moços, inchados e cambaleando pelas ruas, mais pareciam espectros do que seres vivos e o menor obstáculo os fazia cair.

Assim, não tinham forças para enterrar os mortos e quando mesmo as tivessem, não teriam podido fazê-lo, quer por seu número muito elevado, quer porque eles mesmos não sabiam quanto tempo ainda lhes restaria de vida. Se alguém se esforçava por prestar esse dever de piedade, morria também quase sempre de fazê-lo; outros arrastavam-se como podiam até o lugar de sua sepultura, para ali esperar o momento da morte, que estava próxima. No meio de tão espantosa miséria não se ouviam choros nem lamentos, não se escutavam gemidos, porque aquela fome horrível com que a alma estava inteiramente ocupada afogava todos os outros sentimentos.

Os que ainda viviam, contemplavam os mortos com olhos enxutos, e seus lábios inchados e lívidos lhes faziam ver a morte esculpida no rosto. O silêncio era tão grande em toda a cidade, como se ela tivesse sido sepultada numa noite profunda ou que lá não vivesse mais um ser humano. Em tal contingência aqueles celerados, que de tudo eram a causa principal, mais cruéis que a mesma fome e que os animais ferozes, entravam naquelas casas que eram mais sepulcros que lares, e despojavam os mortos, tiravam-lhes até as vestes, e acrescentando ainda a zombaria a tão espantosa desumanidade feriam com golpes os que ainda respiravam para experimentar se suas espadas ainda tinham gume.” (Ibid 424)

Muitos dos que conseguiam fugir da cidade para se entregar aos romanos morriam ao se alimentar, porque estavam há dias sem comer, e o faziam de forma apressada de forma a causar uma terrível indigestão.

Conta Josefo que alguns destes, antes de se entregarem aos romanos, quando possuíam ouro em suas posses, o engoliam para ter como carregá-lo consigo. Aconteceu que um dia um desses fugitivos foi surpreendido procurando ouro no meio de suas fezes, e assim, correndo esta notícia, os soldados passaram a abrir os estômagos daqueles que eram capturados para procurar ouro. Conta Josefo que numa só noite dois mil judeus foram mortos desta maneira. (Ibid 429)

Os cadáveres se entulhavam nas ruas da cidade, de maneira que era impossível se deslocar pelas ruas de Jerusalém sem que se pisasse em algum.

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A Guerra dos Judeus contra os Romanos – Parte 6 – O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos

Josefo estava presente a estes acontecimentos, pois desde o início da campanha de Tito servia-lhe como conselheiro, e desta forma, Tito pediu que ele próprio se dirigisse ao povo em sua língua, a fim de mostrar-lhes que só lhes restava entregar aquilo que na prática já estava tomado.

É importante refletir que a situação de Jerusalém só chegou a este ponto por causa dos grupos de bandidos que tomaram a cidade e não por iniciativa do povo. O povo, mesmo querendo e desejando a rendição, não podia fazê-lo por temor dos malfeitores. Estavam assim, no pior dos mundos, cercados pelos romanos e por bandidos dentro da cidade.

Josefo escolheu um lugar bem alto, fora do alcance dos dardos, de onde os judeus pudessem ouvi-lo. Apelou de todas as formas possíveis: mostrou que as muralhas mais fortes já haviam sido derrubadas e que só restava a mais fraca, e que sua obstinação estava levando à ruína não só a cidade, como também o Templo e a vida de seus cidadãos. Pediu que considerassem que Tito, destinado para a sucessão do império, estava pronto a lhes conceder a paz; se não a aceitassem, seriam todos mortos. Que considerassem que mesmo que conseguissem resistir, a fome os mataria, emfim, não houve argumento que não usasse, mas ao invés de ouvi-lo, zombaram dele, injuriaram-no e alguns até mesmo atiraram-lhe dardos.

Vejamos como ele próprio argumentou com seus patrícios: “Vendo, então, que misérias tão graves não eram capazes de os comover, julgou dever falar-lhes do que havia acontecido no tempo de seus antepassados e disse-lhes: “Miseráveis que sois, vos esquecestes talvez de onde vos veio auxílio em todos os tempos? Será por meio das armas que pretendeis vencer os romanos, como se devêsseis às vossas próprias forças as vitórias que tendes obtido? E esse Deus Todo Poderoso, que criou o universo não foi sempre o protetor dos judeus, quando eles foram injustamente atacados? Não compreendereis vós mesmos, refletindo, o ultraje que lhe fazeis, violando o respeito que lhe é devido, fazendo de seu Templo uma fortaleza, de onde sais empunhando armas como de uma praça de guerra? Esquecestes tantas ações, tão religiosas, de nossos avós e de quantas guerras a santidade desse lugar foi preservada? Tenho vergonha de relatar as obras admiráveis de Deus a pessoas indignas de ouvi-las. No entanto, ouvi-as, a fim de saberdes que é verdadeiramente a Ele e não aos romanos, que resistis.”

E assim, lembrou-lhes de muitos outros casos em que Deus lutou pelo seu povo, mas que agora dava-se o contrário. Nada os fez demover de sua obstinação.

Nesta altura já havia muita fome na cidade, de maneira que os que tinham algum dinheiro vendiam secretamente os seus bens por uma medida de trigo. A comida era escondida nos lugares mais ocultos das casas, onde as refeições eram tomadas cruas. Os revoltosos procuravam alimentos por todas as casas, e quando encontravam, não só o tomavam como também matavam quem os possuía. As pessoas eram espancadas para confessar onde escondiam alguma comida, crianças eram violentadas em frente aos pais para causar intimidação. Josefo relata que “os homens eram pendurados pelas partes mais sensíveis, fincavam-lhes na carne pedaços de pau pontiagudos e os faziam sofrer outros indizíveis tormentos, para fazê-los declarar onde tinham escondido um pão ou um punhado de farinha. Esses carrascos achavam que, em tal conjuntura, podia-se, sem crueldade, praticar tão horríveis ações e eles ajuntaram, por esse meio, o necessário para viver seis dias. Tiravam dos pobres as ervas que de noite eles iam colher fora da cidade, com perigo de vida; nem escutavam os rogos que lhes faziam, em nome de Deus, para lhes deixar uma pequena porção e julgavam fazer-lhes grande favor, não os matando depois de os ter roubado.”

Os romanos capturavam diariamente um grande número destas pessoas que tentavam encontrar fora da cidade algum tipo de erva que pudessem comer e dar a seus filhos. Cerca de quinhentas pessoas eram crucificadas todos os dias à vista dos que estavam na cidade. Josefo comenta que “não eram suficientes as cruzes, e havia já falta de lugar, para tantos instrumentos de suplício” e que “a morte que recebiam das mãos dos inimigos parecia-lhes suave em comparação com o que a fome e a miséria os faziam sofrer.”

Tito mandou cortar as mãos de várias pessoas que eram capturadas, e depois de fazê-lo, enviava-os de volta à cidade para servirem de exemplo aos outros.

Não faz isto nos lembrar as palavras do povo diante de Pilatos? ” O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.” (Mateus 27 : 25)

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A Guerra dos Judeus contra os Romanos – Parte 5 – Tito ataca os Muros de Jerusalém

O objetivo inicial de Tito era tomar a fortaleza de Antônia. Mandou cortar as árvores que havia ao redor da cidade e com a madeira ergueu plataformas junto ao primeiro muro no seu lado. Os trabalhadores eram protegidos das setas atiradas pelos judeus com telhas, ao mesmo tempo que catapultas atiravam enormes pedras contra os muros. Vários arietes eram usados para derrubar os muros. Josefo conta que o barulho das batidas era tão intenso, que este fez com o terror se espalhasse de tal forma dentro da cidade que causou aquilo que Vespasiano já previra muito tempo antes: os grupos de revoltosos que dominavam a cidade juntaram-se contra o inimigo comum. Distribuíram-se pelas muralhas e passaram a atirar grande quantidade de fogo e de dardos contra as máquinas dos romanos e contra os que manejavam os aríetes. Tinham também várias catapultas deixadas pelos romanos no tempo de Céstio, mas mal sabiam usá-las.

Depois de quinze dias de investida, os romanos conseguiram tomar o controle do primeiro muro, conforme Josefo, no dia 7 de maio.

Na sequência desta conquista Tito ordenou que atacasse o segundo muro pelo seu lado norte, onde mandou concentrar os arietes e atiradores de dardos. Em cinco dias tomaram este muro que dava para a cidade nova, entrando nela com cerca de dois mil soldados.

Viviam naquela parte da cidade os comerciantes. Tito aprisionou muitos e proibiu que os matassem ou que se incendiassem suas casas, pois, ao mesmo tempo que desejava conquistar a cidade, desejava também conservá-la para o império e o Templo para a cidade. Prometeu a eles que poderiam conservar seus bens desde que se rendessem, mas os sediciosos que ocupavam aquela região da cidade ameaçaram matar os que falassem em se entregar e até mesmo os que somente ousassem proferir a palavra paz.

Estes primeiros soldados romanos que entraram naquela região da cidade se deram mal, pois ficaram encurralados entre o primeiro e o segundo muros, de maneira que o número de judeus só fazia aumentar e o ataque contra estes soldados foi brutal. Josefo diz que as ruas desta parte da cidade eram muito estreitas e o conhecimento do lugar dava aos judeus grande vantagem, de maneira que por um tempo conseguiram retomar o controle do local.

Os judeus, conforme explica Josefo, entenderam que aquele contingente que entrara na cidade era todo o exército romano, como se Deus, para castigar seus pecados, os cegasse em suas considerações, fazendo que nem sequer imaginassem que aqueles eram apenas um simples destacamento: “Eles não imaginavam que os que haviam repelido eram apenas uma pequeníssima parte do exército romano e que a fome, que crescia sempre, era para eles outro inimigo não menos temível. Havia já algum tempo que se podia dizer que eles viviam dos bens do povo e bebiam seu sangue, pois tantos homens de bem sofriam muito, e vários já tinham morrido à míngua. Mas esse malvados consideravam a desgraça dos outros como vantagem para si mesmos. Julgavam dignos de viver somente os inimigos da paz, que só viviam para fazer guerra aos romanos; todo o restante era para eles uma multidão inútil, que lhes era de peso; e mais cruéis para com seus próprios cidadãos, do que os bárbaros para com os seus, alegravam-se em ver morrer aquele pobre povo. Os romanos atacaram de novo, contra sua expectativa, aquele mesmo muro que tinham conquistado e perdido, e o fizeram durante três dias seguidos, dando diversos assaltos, que os judeus sustiveram com tanto ardor que eles foram sempre repelidos. Mas no quarto dia, Tito preparou um ataque tão violento que os judeus não puderam sustentá-lo, e assim pela segunda vez ele se apoderou desse muro. Mandou então destruir tudo o que estava do lado do norte e colocou guardas nas torres que estão voltadas para o sul.” (Ibid 412-413)

Tito, antes de atacar o terceiro muro deu aos sediciosos a oportunidade da rendição; Tentou atemorizar o povo fazendo uma exibição de todas as suas tropas; mandou dispôs delas num lugar onde os judeus as podiam ver e mandou pagar o soldo a todos os homens. Mas nem isto fez com que mudassem de ideia.

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A Guerra dos Judeus contra os Romanos – Parte 4 – Os Muros de Jerusalém

Neste tempo Tito iniciou sua marcha contra Jerusalém. Conforme Josefo, “Tito tinha além das três legiões que haviam servido sob o imperador, seu pai, e devastado a Judeia, a décima segunda, que não somente era composta de ótimos soldados, mas ainda se lembravam dos infelizes resultados sob o comando de Céstio e esperavam o momento de se vingar de tal afronta.” (Ibid 382)

Para além das forças que já tinha a seu dispor na Judeia, contou com grandes reforços enviados pelos reis do entorno, além de sírios, e dois mil homens escolhidos no exército de Alexandria, que juntos com três mil outros que vinham do Eufrates, eram comandados por Tibério Alexandre, governador do Egito e o primeiro que havia aderido a Vespasiano. Não bastassem tais credenciais, diz Josefo que Tibério era um homem de grande experiência em assuntos de guerra.

A formação dos exércitos que marcharam contra Jerusalém era mesmo digna da mais épica das conquistas, e nada se parecia com a tomada de uma pequena cidade: “Primeiro vinham as tropas auxiliares; seguiam-nas os operários para preparar as estradas. Depois vinham os que estavam encarregados de demarcar os limites do acampamento. Atrás destes, as bagagens dos chefes, com sua escolta. Logo depois vinha Tito, acompanhado por seus guardas e outros soldados escolhidos; atrás dele, um corpo de cavalaria, que estava à frente das máquinas. Os tribunos e os chefes das coortes seguiam também acompanhados por soldados escolhidos. Logo depois vinha a águia rodeada pelas insígnias das legiões, precedida por trombetas. Os corpos de batalha como marchavam os soldados seis a seis, vinham em seguida. Os servos das legiões estavam atrás, com a bagagem; os que traziam os víveres e os operários com tropas especiais para sua guarda fechavam a marcha.” (Ibid 383)

Tito avançou com seiscentos cavaleiros escolhidos, para explorar Jerusalém, quando foi atacado por um grande número de judeus, ficando assim, separado do restante de seu exército. Mesmo não estando armado, pois só pretendia fazer o reconhecimento do campo de batalha, Tito, sem se ferir escapou, chegando ao seu acampamento com o restante dos homens. Sobre este episódio Josefo faz o seguinte comentário: “Vimos então, que as vicissitudes da guerra e a conservação dos soberanos pertencem a Deus, unicamente. Embora Tito não estivesse armado, porque não tinha vindo para combater, mas apenas para fazer um reconhecimento, nenhum daquele número infinito de dardos que foram lançados o atingiu; todos passavam além, como se um poder invisível tivesse o cuidado de desviá-los.” (Ibid 384)

Interessante notar, que mesmo no meio de uma guerra, a páscoa foi celebrada aquele ano. Como vimos, eram três grupos de malfeitores que lutavam dentro da cidade por sua posse. Um era liderado por Eleazar, outro por João e outro por Simão. O grupo liderado por Eleazar, que estava de posse da parte interior do Templo, abriu naquela ocasião suas portas para a celebração da data. Aproveitando a oportunidade, o grupo de João atacou o rival e o derrotou, consolidando-se assim, como senhor do Templo. Restaram assim, dois grupos dentro da cidade: o de João e o de Simão.

Para tomar a cidade Tito teria que controlar seus muros bem como as fortalezas que os protegiam. Imaginando-se Jerusalém como uma estrutura quadrada, a cidade era, naquele tempo, cercada por um muro tríplice em três de seus lados. No quarto lado, o muro era de uma estrutura única, pelo fato deste lado dar de frente para um vale praticamente inexpugnável. Diz Josefo que havia muitas casas neste vale.

Este muro tríplice foi construído em diferentes épocas, tendo sido o primeiro deles iniciado por Davi. Começava na torre chamada Hípicos, no lado ocidental, e ia terminar no pórtico do Templo, que está do lado do oriente. Ali começava o segundo muro e ia até a Fortaleza Antônia do lado do norte. O terceiro muro começava na torre de Hípicos, estendia-se do lado norte até a torre Psefina, e era obra do rei Agripa, pai do Agripa daquele tempo.

Havia noventa torres espalhadas no decurso destes muros usadas para sua proteção, entre as quais, a torre Psefina, em frente à qual Tito havia estabelecido seu acampamento, que diz Josefo, superava a todas as demais em beleza. Sua forma era ortogonal, muito alta, de maneira que que quando o sol despontava, de lá se podia ver a Arábia, o mar e até as fronteiras da Judéia.

Em frente dessa torre estava a de Hípicos e muito perto dela, ainda duas outras, Fazaela e Mariana, todas construídas por Herodes, o Grande,

Herodes, aquele que, visando matar Jesus, ainda na sua infância, mandou eliminar todos os meninos nascidos em Belém, com idade inferior a dois anos, era, para além de um déspota terrível, um grande arquiteto, talvez o maior de seu tempo e possivelmente um dos maiores que haja existido até hoje.

Estas três torres formavam um único conjunto arquitetônico, que conforme Josefo, possuíam uma beleza e força tão extraordinárias que não havia outras comparáveis no mundo.

A primeira torre, de cerca de quarenta metros de altura, Herodes chamou de Hípicos, nome de um amigo. A segunda, Fazaela, levava este nome em homenagem a Fazael, seu irmão. Tinha também cerca de quarenta metros de altura e assemelhava-se ao farol de Alexandria. Esta torre servia de quartel general de Simão, o líder de um dos grupos de malfeitores que ocupava a cidade. A terceira tinha o nome da rainha Mariana, esposa de Herodes, a quem ele próprio assassinou por conta do ciúmes. Era a mais baixa das três, com cerca de trinta metros de altura, mas ainda assim, diz Josefo que superava as outras duas em beleza e em riqueza de detalhes.

Outra das torres digna de nota é a Fortaleza Antônia, também construída pelo rei Herodes para homenagear Marco Antônio de quem fora amigo. Era ao mesmo tempo forte em seu exterior e luxuosa por dentro, como um um palácio. Dela se podia ver todo o Templo. Diz Josefo que o Templo era como a cidadela de Jerusalém, e a torre Antônia era como a cidadela do Templo, de maneira que os romanos, quando ainda dominavam a cidade, mantinham lá uma guarnição para defender não só a fortaleza, como também a cidade e o Templo. Estes foram todos mortos no tempo de Céstio.

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A Guerra dos Judeus contra os Romanos – Parte 3 – A Guerra Civil dentro de Jerusalém

Neste tempo formava-se dentro de Jerusalém um terceiro grupo de malfeitores oriundo da divisão do partido dos zelotes, aos quais Josefo chama de animais por seu ódio gratuito e brutalidade. Eram, portanto, três grupos dentro da cidade a se atacarem mutuamente, bem como as populações que estavam em seu caminho.

Em seu futuro breve, quando Tito já houvesse conquistado Jerusalém, Josefo diria: ” Cidade infeliz, que sofreste de semelhante, depois que os romanos, entrando pela brecha, reduziram-te a cinzas, para purificar com o fogo, tantas abominações e crimes que atraíram sobre ti os raios da vingança de Deus.

Poderias continuar a ser o lugar adorável, onde ele tinha estabelecido sua morada e ficar impune, depois de ter pela mais sangrenta e cruel guerra civil, como nunca se viu, feito de seu Templo, o sepulcro de teus concidadãos? Não desesperes, porém, em acalmar sua cólera, contanto que teu arrependimento iguale a enormidade de tuas ofensas. Mas devo conter meus sentimentos, pois que a lei da história em vez de me permitir deter-me para chorar minhas desgraças, obriga-me a apresentar a sequência dos tristes efeitos de nossas funestas divisões.” (Ibid, 377)

Esses três partidos opostos agiam uns contra os outros em Jerusalém, tendo o Templo como campo de batalha; isto no sentido literal da palavra, uma vez que lá todos lutavam por sua posse por estar localizado nas partes mais altas da cidade. Acrescente-se ainda que nas imediações do Templo havia um grande depósito de trigo que terminou por ser incendiado, causando assim uma grande carestia de alimentos, o que veio afinal, trazer grande fome e maior sofrimento à cidade.

Josefo descreve desta forma a situação da cidade: “No meio de tantos males que afligiam Jerusalém de todos os lados e que tornavam aquela infeliz cidade como um corpo exposto ao furor das feras mais cruéis, os velhos e as mulheres suspiravam pelos romanos e desejavam ser libertados por uma guerra estrangeira, das misérias que aquela guerra doméstica os fazia sofrer.

Jamais desolação foi maior do que a daqueles infelizes habitantes; qualquer resolução que eles tomavam, não achavam meio de a executar; nem podiam fugir, porque todas as passagens estavam guardadas; os chefes desses partidos tratavam como inimigos e matavam a todos os de que suspeitavam querer se entregar aos romanos e a única coisa em que estavam de acordo, era dar a morte aos que mais mereciam viver.

Ouviam-se dia e noite os gritos dos que lutavam, uns contra os outros; por maior impressão que causasse o medo nos espíritos, os lamentos dos feridos feriam-nos ainda mais; tantas desgraças davam sem cessar novos motivos de aflição, mas o temor sufocava as palavras e por uma cruel imposição retinha os suspiros no coração; os servidores haviam perdido todo o respeito por seus senhores; os mortos eram privados da sepultura, todos se descuidavam de seus deveres porque não havia mais esperança de salvação; a horrível crueldade daqueles facciosos chegou a incríveis excessos: eles faziam montes de corpos dos que haviam matado, espezinhavam-nos e deles se serviam como de um campo de batalha onde combatiam, com tanto furor, que a vista de tão espantoso espetáculo, obra de suas mãos, aumentava ainda o fogo da ira que lhes incendiava o coração.” (Ibid 380)

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A Guerra dos Judeus Contra os Romanos – Parte 2 – Galba, Otom e Vitélio

Vespasiano, antes de atacar Jerusalém, como quisesse fazê-lo por todos os lados, mandou construir fortes em Jericó e cidades ao derredor, conforme eram tomadas. Milhares de judeus foram mortos nesta campanha e as cidades incendiadas e arrasadas. Quando o ataque a Jerusalém era iminente, “Vespasiano recebeu a notícia da morte do imperador Nero, depois de ter reinado treze anos. Suspendeu assim a marcha contra Jerusalém, querendo antes saber quem seria o sucessor de Nero, e quando viu que o império tinha caído nas mãos de Galba, julgou dever adiar seu projeto, nada empreendendo até receber suas ordens.

Mandou para esse fim, Tito, seu filho, procurá-lo e prestar-lhe em seu nome suas primeiras homenagens. O rei Agripa quis fazer também a mesma viagem, para saudar o novo imperador, mas como era inverno e eles tinham embarcado em grandes navios, não tinham ainda passado a Acaia quando souberam que Galba tinha sido morto, depois de ter reinado somente sete meses e sete dias e que Otom o havia substituído. Essa mudança não impediu que Agripa continuas¬se com a mesma resolução de ir a Roma. Mas Tito, como inspirado divinamente, voltou logo para junto de seu pai, e com ele foi a Cesaréia. Tão grandes e extraordinários movimentos, capazes de causar a ruína do império, mantinham todos os espíritos em suspensão e não se podia mais pensar na guerra da judéia, porque não se podia pensar em dominar os estrangeiros, quando se tinha tanto motivo de temer pela salvação da mesma pátria. ” (Ibid 344)

Galba havia sido assassinado no centro de Roma, e Otom o sucedera, mas as legiões romanas na Germânia escolheram Vitélio como imperador, e assim, havendo o confronto entre os dois postulantes, Otom foi derrotado e se matou depois de ter reinado três meses.

Vespasiano, não querendo mais perder tempo retomou a campanha na Judeia. À medida que se apoderava das cidades, deixava guarnições em todas elas.

Roma, naquele mesmo tempo, estava em plena guerra civil: como Vitélio houvesse entrado na cidade com inúmeras tropas, e ainda pelo fato destes soldados estarem desacostumados ao luxo e riqueza, puseram-se a saquear as casas matando quem quer que se colocasse em seus caminhos.

Quando Vespasiano retornou a Cesareia, depois de retomar, à exceção de Massada, Herodiom, e Macherom, todas as praças que estavam nas mãos dos revoltosos, soube da situação em que se encontrava Roma, e que Vitélio fizera a si mesmo imperador. Isto causou a Vespasiano uma grande indignação, porque lhe era intolerável ver o império ser usurpado como uma presa qualquer.

Diz Josefo que o mau humor de Vespasiano em conversas com seus oficiais tornou-se conhecido de seus soldados, que por sua vez, passaram a confabular entre si quão injusta era a situação e que ao invés de Vitélio era Vespasiano muito mais merecedor de tal honraria. Não tardou, desta forma, que toda esta indignação se transformasse em atitude, de maneira que Vespasiano, amparado pelas suas legiões, aceitou a incumbência de seus comandados, sendo assim aclamado imperador de Roma. Restava agora conquistar a cidade.

Como estivesse distante de Roma, e o inverno se aproximasse, achou por bem controlar antes Alexandria, no Egito, que além de possuir uma considerável força militar, pois lá estavam estacionadas duas legiões de soldados, era também, e principalmente, o principal polo produtor de trigo e cereais que abastecia Roma. Enviou, então, uma carta a Tibério Alexandre, governador de Alexandria, contando que fora aclamado imperador por seus soldados, e que necessitava de sua ajuda para assumir tamanha responsabilidade. Tibério fez de imediato um pacto de lealdade com Vespasiano, fazendo com que suas legiões também jurassem fidelidade ao novo imperador.

A notícia da escolha de Vespasiano espalhou-se com grande rapidez pelo oriente, e foi acolhida com grande alegria por todos, uma vez que Vespasiano era tido em grande conta por seus serviços prestados ao império. Acrescente-se a isto a adesão das legiões que estavam na Hungria e Moésia que pouco antes haviam se revoltado contra Vitélio, além do fato de ter na própria cidade de Roma, Tito Flávio Sabino , irmão de Vespasiano, como prefeito da cidade (56 a 59).

Vespasiano enviou a Roma, um exército liderado por Múcio, e além deste, Antônio Primo, governador da Moésia (leste europeu – compreendida hoje bela Sérvia e Bulgária). Contra o último Vitélio enviou trinta mil homens liderados por Cesina, aquele que havia derrotado Otom, e por esta razão, digno de sua confiança. Mas ao avistar as legiões de Antônio Primo, Cesina aderiu ao partido de Vespasiano.

Em Roma, quando chegou a notícia de que Primo se aproximava da cidade, Sabino, irmão de Vespasiano, apoderou-se do Capitólio, contando com a ajuda de Domiciano, seu sobrinho, filho mais novo de Vespasiano.

Contra eles Vitélio enviou todas as suas forças, de maneira que Sabino foi morto juntamente com quase todos que o ajudaram nesta empreitada. Domiciano, que viria no futuro a reinar sobre Roma, escapou como que por milagre. No dia seguinte Primo chegou com seu exército derrotando Vitélio de forma definitiva, depois deste reinar apenas oito meses. Somente no dia seguinte Múcio entrou em Roma com seu exército. O poder foi colocado então nas mãos de Domiciano até que seu pai chegasse a Roma.

E assim, tendo que retornar a Roma, Vespasiano deixou encarregado de tomar Jerusalém, seu filho, Tito.

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