A Guerra dos Judeus contra os Romanos – Parte 9 – Ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias!

Paralelo ao que acontecia no Templo, a fome grassava na cidade. Josefo conta a estória de uma mulher que quis o destino estivesse presa na cidade naqueles dias. Era rica e fugindo da guerra que chegara à sua aldeia veio refugiar-se em Jerusalém. Viveu ali dias tão amargurados que ao fim de longo sofrimento matou seu filho recém nascido para dele se alimentar. Vejamos como o autor descreve este episódio: “… matou o filho, cozeu-o, comeu uma parte e escondeu a outra.

Aqueles ímpios, que só viviam de rapina, entraram em seguida naquela casa; tendo sentido o cheiro daquela iguaria inominável, ameaçaram matá-la, se ela não lhes mostrasse o que tinha preparado para comer. Ela respondeu que ainda lhe restava um pedaço da iguaria e mostrou-lhes restantes do corpo do próprio filho. Ainda que tivessem um coração de bronze, tal espetáculo causou-lhes tanto horror, que eles pareciam fora de si. Ela, porém, na exaltação que lhe causava o furor, disse-lhes, com o rosto convulsionado: “Sim, é meu próprio filho que vedes, e fui eu mesma que o matei. Podeis comê-lo, também, pois eu já comi. Sois talvez menos corajosos que uma mulher e tendes mais compaixão que uma mãe? Se vossa piedade não vos permite aceitar essa vítima, que vos ofereço, eu mesma acabarei de comê-lo”.

Aqueles homens que até então não haviam sabido o que era a compaixão, retiraram-se trêmulos, e por maior que fosse a sua avidez em procurar alimento, deixaram o restante daquela detestável iguaria à infeliz mãe.

A notícia de fato tão funesto espalhou-se incontinenti por toda a cidade. O horror que todos sentiram foi o mesmo, como se cada qual tivesse cometido aquele horrível crime; os mais torturados pela fome só desejavam morrer, quanto antes, e julgavam felizes os que já haviam morrido, antes de ter tido ciência deste fato ou ouvido narrar coisa tão execrável.

Os romanos também logo souberam de tudo, isto é, da criança sacrificada por sua própria mãe, para que ela pudesse continuar a viver. Uns não podiam crer no que se dizia; outros sentiam imensa compaixão, mas a maior parte viu acender-se ainda mais o ódio que já sentiam contra os judeus.

Tito, para se justificar diante de Deus a esse respeito, protestou em voz alta que ele tinha oferecido aos judeus uma anistia geral de todo o passado e visto que eles tinham preferido a revolta à obediência, a guerra à paz, a carestia à abundância e tinham sido os primeiros a incendiar com suas próprias mãos o Templo, que ele tinha se esforçado por conservar, mereciam ser obrigados a se alimentar de tão execrável iguaria.

No entanto, ele sepultaria aquele horrível crime sob as ruínas da sua capital, a fim de que o sol, fazendo a volta ao mundo, não fosse obrigado a esconder seus raios, pelo horror, de iluminar uma cidade onde as mães se nutriam de carne dos próprios filhos, onde os pais não eram menos culpados que elas, pois tão estranhas misérias não os podiam decidir a abandonar as armas. Estas as palavras do grande príncipe, porque, considerando até que excesso ia a raiva daqueles revoltosos, ele não achava, que depois de ter sofrido tantos males, dos quais apenas o temor deveria trazê-los ao cumprimento do dever, nada poderia jamais fazê-los mudar.” (Ibid 459)

Nós mínimos detalhes esta estória nos lembra as palavras de Jesus em Mateus 24 : 19: “Mas ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias!”

Como a realidade das palavras do Senhor poderiam ser mais amargas e reais que isto? Quem, naqueles dias de Jesus poderia crer que Jerusalém chegaria a este ponto?

2 comentários

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2 responses to “A Guerra dos Judeus contra os Romanos – Parte 9 – Ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias!

  1. Chicco Sal

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  2. Silva

    “Vê, ó Senhor, e considera a quem fizeste assim! Hão de comer as mulheres o fruto de si mesmas, as crianças que trazem nos braços? Ou matar-se-á no santuário do Senhor o sacerdote e o profeta?
    Lamentações 2:20