A Guerra dos Judeus contra os Romanos – Parte 6 – O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos

Josefo estava presente a estes acontecimentos, pois desde o início da campanha de Tito servia-lhe como conselheiro, e desta forma, Tito pediu que ele próprio se dirigisse ao povo em sua língua, a fim de mostrar-lhes que só lhes restava entregar aquilo que na prática já estava tomado.

É importante refletir que a situação de Jerusalém só chegou a este ponto por causa dos grupos de bandidos que tomaram a cidade e não por iniciativa do povo. O povo, mesmo querendo e desejando a rendição, não podia fazê-lo por temor dos malfeitores. Estavam assim, no pior dos mundos, cercados pelos romanos e por bandidos dentro da cidade.

Josefo escolheu um lugar bem alto, fora do alcance dos dardos, de onde os judeus pudessem ouvi-lo. Apelou de todas as formas possíveis: mostrou que as muralhas mais fortes já haviam sido derrubadas e que só restava a mais fraca, e que sua obstinação estava levando à ruína não só a cidade, como também o Templo e a vida de seus cidadãos. Pediu que considerassem que Tito, destinado para a sucessão do império, estava pronto a lhes conceder a paz; se não a aceitassem, seriam todos mortos. Que considerassem que mesmo que conseguissem resistir, a fome os mataria, emfim, não houve argumento que não usasse, mas ao invés de ouvi-lo, zombaram dele, injuriaram-no e alguns até mesmo atiraram-lhe dardos.

Vejamos como ele próprio argumentou com seus patrícios: “Vendo, então, que misérias tão graves não eram capazes de os comover, julgou dever falar-lhes do que havia acontecido no tempo de seus antepassados e disse-lhes: “Miseráveis que sois, vos esquecestes talvez de onde vos veio auxílio em todos os tempos? Será por meio das armas que pretendeis vencer os romanos, como se devêsseis às vossas próprias forças as vitórias que tendes obtido? E esse Deus Todo Poderoso, que criou o universo não foi sempre o protetor dos judeus, quando eles foram injustamente atacados? Não compreendereis vós mesmos, refletindo, o ultraje que lhe fazeis, violando o respeito que lhe é devido, fazendo de seu Templo uma fortaleza, de onde sais empunhando armas como de uma praça de guerra? Esquecestes tantas ações, tão religiosas, de nossos avós e de quantas guerras a santidade desse lugar foi preservada? Tenho vergonha de relatar as obras admiráveis de Deus a pessoas indignas de ouvi-las. No entanto, ouvi-as, a fim de saberdes que é verdadeiramente a Ele e não aos romanos, que resistis.”

E assim, lembrou-lhes de muitos outros casos em que Deus lutou pelo seu povo, mas que agora dava-se o contrário. Nada os fez demover de sua obstinação.

Nesta altura já havia muita fome na cidade, de maneira que os que tinham algum dinheiro vendiam secretamente os seus bens por uma medida de trigo. A comida era escondida nos lugares mais ocultos das casas, onde as refeições eram tomadas cruas. Os revoltosos procuravam alimentos por todas as casas, e quando encontravam, não só o tomavam como também matavam quem os possuía. As pessoas eram espancadas para confessar onde escondiam alguma comida, crianças eram violentadas em frente aos pais para causar intimidação. Josefo relata que “os homens eram pendurados pelas partes mais sensíveis, fincavam-lhes na carne pedaços de pau pontiagudos e os faziam sofrer outros indizíveis tormentos, para fazê-los declarar onde tinham escondido um pão ou um punhado de farinha. Esses carrascos achavam que, em tal conjuntura, podia-se, sem crueldade, praticar tão horríveis ações e eles ajuntaram, por esse meio, o necessário para viver seis dias. Tiravam dos pobres as ervas que de noite eles iam colher fora da cidade, com perigo de vida; nem escutavam os rogos que lhes faziam, em nome de Deus, para lhes deixar uma pequena porção e julgavam fazer-lhes grande favor, não os matando depois de os ter roubado.”

Os romanos capturavam diariamente um grande número destas pessoas que tentavam encontrar fora da cidade algum tipo de erva que pudessem comer e dar a seus filhos. Cerca de quinhentas pessoas eram crucificadas todos os dias à vista dos que estavam na cidade. Josefo comenta que “não eram suficientes as cruzes, e havia já falta de lugar, para tantos instrumentos de suplício” e que “a morte que recebiam das mãos dos inimigos parecia-lhes suave em comparação com o que a fome e a miséria os faziam sofrer.”

Tito mandou cortar as mãos de várias pessoas que eram capturadas, e depois de fazê-lo, enviava-os de volta à cidade para servirem de exemplo aos outros.

Não faz isto nos lembrar as palavras do povo diante de Pilatos? ” O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.” (Mateus 27 : 25)

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