A questão da morte de Herodes

A história data insistentemente a morte de Herodes em 4 AC. Sua morte nos é importante, pois, conforme vimos anteriormente, Herodes mandou que fossem mortos os meninos nascidos em Belém dois anos antes da data obtida dos magos, o que estava, por sua vez, relacionada ao surgimento da estrela vista por eles no oriente. Desta forma, o nascimento de Jesus teria que ter ocorrido antes disto, entre 5 e 7 AC.

Relatos de historiadores antigos, tais como Irineu, Hipólito de Roma, Orígenes, Clemente de Alexandria, Cassiodorus, Julius Africanus, Tertuliano, Hipólito,Euzébio, e Jerônimo, entre outros, colocam o nascimento de Jesus entre 2 e 3 AC. Embora a maioria deles seja catalogada do ponto de vista da doutrina cristã como hereges, vale o seu testemunho histórico, pois seus registros mostram aquilo que seria o consenso geral a respeito desta questão nos primeiros séculos da igreja.

Ainda segundo o consenso geral entre os historiadores, a data da morte de Herodes foi fixada baseada nas informações de Flávio Josefo, principalmente uma que relata a ocorrência de um eclipse lunar pouco tempo antes de sua morte, que veio a ocorrer antes da Páscoa daquele ano. Desta forma, a morte de Herodes teria ocorrido entre janeiro e abril.

Conforme veremos examinando os textos de Josefo, qualquer leitor que desconhecesse o fato de a história datar a morte de Herodes em 4 AC, lendo os seus textos jamais a dataria da mesma forma, uma vez que Josefo dá uma informação muito mais segura sobre este evento, quando explica que Herodes reinou 37 anos desde a sua nomeação por Marco Antônio, e 34 anos depois de haver expulso seu antecessor Antígono da Judéia.

Herodes foi confirmado rei da Judéia em 37 AC, e só esta informação já seria suficiente para datar sua morte em 1 AC.

No contexto do parágrafo 741, do capítulo X, do Livro XVII das Antiguidades Judaicas, Josefo relata assim o acontecimento:

“741. Herodes mudou imediatamente o seu testamento. Em lugar do prece¬dente, em que tinha nomeado Antipas, seu sucessor, contentou-se neste em nomeá-lo, tetrarca da Galiléia e da Peréia; deu o reino a Arquelau; a Filipe seu irmão, a Traconítida, a Gaulanita e a Batanéia, que erigiu em tetrarquia; a Salomé, sua irmã, jamnia, Azoto e Fazaelite, com cinqüenta mil peças de prata. Deu ainda grandes presentes a todos os outros parentes, quer em dinheiro quer em rendi¬mentos anuais: deu a Augusto, além de sua baixela de ouro e de prata, grande quantidade de móveis e objetos preciosos, dez milhões de peças de prata e cinco milhões idênticas, à imperatriz e a alguns de seus amigos.

Ele sobreviveu a Antipatro (filho de Herodes), apenas cinco dias, e morreu trinta e quatro anos depois de ter expulso Antígono do reino e trinta e sete, depois de ter sido declarado rei, em Roma.

Não houve jamais príncipe mais colérico, mais injusto, mais cruel e mais favorecido pela sorte. Pois, tendo nascido em condição humilde, chegou a subir ao trono, venceu perigos sem conta e viveu muitos anos.

Quanto aos seus dissabores domésticos, embora as tentativas de seus filhos contra ele o tivessem tornado muito infeliz, segundo meu parecer, ele foi mesmo feliz nisso, segundo o juízo que disso ele fazia, porque não os considerando mais como seus filhos, mas como inimigos, ele os castigou e vingou-se deles.”

Antígono, antecessor de Herodes, era considerado por Marco Antônio inimigo dos romanos, além de perigoso e faccioso, e desta forma, vendo que ele consistia ainda numa ameaça a Herodes, mandou matá-lo. A morte de Antígono, a quem Marco Antônio mandou cortar a cabeça, é relatada no Vol IV, Livro XV, Capítulo I, parágrafo 628 das Antiguidades Judaicas, sem qualquer referência à data do acontecimento.

Não obstante haver uma informação tão clara datando a morte de Herodes 37 anos depois de ser nomeado governador da Judéia, a maioria dos historiadores prefere se valer de outro indicativo da data de sua morte: a ocorrência do mencionado eclipse, conforme relato da mesma obra em seu capítulo VIII.

Este capítulo trata de um acontecimento em que alguns judeus arrancam do portal do Templo uma grande águia de ouro que Herodes havia ali colocado.

Corria naqueles dias um boato de que Herodes, já muito doente, havia morrido, de maneira que um grupo de judeus animou-se em arrancar e destruir aquele símbolo que afrontava o primeiro mandamento de Moisés. E de fato o fizeram, à luz do dia, perante uma grande multidão que estava no Templo.

Alguns deles foram presos e julgados por Herodes, que mandou queimar vivo o líder dos revoltosos, um homem de nome Matias, muito bem visto e querido por todos. O texto de Josefo completa a narrativa dizendo que “naquela mesma noite sobreveio um eclipse da lua”.

Este fato, conforme se pode observar na tabela abaixo, parece também haver sido mal interpretado, uma vez que no ano 4 AC, os dois eclipses lunares ocorridos foram parciais, não sendo, desta forma, fatos dignos de destaque, enquanto se observa que no 1 AC houve dois eclipses totais da lua, tendo o primeiro deles, ocorrido em 7 de janeiro, o mais indicativo de ser o referido por Josefo. Faça você mesmo a simulação destas lunações com o software referido abaixo.

A razão pela qual os historiadores provavelmente optam pelo eclipse de 4 AC deve-se ao fato de que a narrativa subsequente ao acontecimento está mais próxima da Páscoa daquele ano, cerca de um mês, que por sua vez, veio a ocorrer em abril. Desta forma, acreditam os historiadores que os fatos narrados se ajustam melhor num período mais curto. É um raciocínio aceitável, mas pouco provável, uma vez que num relato histórico de cerca de quatro mil anos seria difícil, ou impossível, determinar com exatidão a duração dos fatos narrados.

Além disto, adotar a referência do dito eclipse, passaria por cima do único indicativo claro acerca da morte de Herodes, este por sua vez muito mais preciso, onde Josefo diz que ele ” morreu trinta e quatro anos depois de ter expulso Antígono do reino e trinta e sete, depois de ter sido declarado rei, em Roma”, argumento este mais que suficiente por si só para determinar a data de sua morte.

Na mesma obra referida, no Livro XV, capítulo VII, parágrafo 644, Josefo data indiretamente o início do governo de Herodes, quando relata a ocorrência de um grande terremoto na Judéia. Vejamos o texto: “644. No sétimo ano do reinado de Herodes, o mesmo em que se deu a batalha de Áccio, entre Augusto e Antônio, aconteceu na Judeia o maior terremoto de que ali se teve notícia”.

A batalha de Áccio deu-se, conforme consenso histórico, em 31 AC, e desta forma, a informação de que Herodes iniciou seu governo em 37 AC é bastante segura. Herodes reinou 37 anos, vindo a falecer, portanto, no ano 1 AC, como já advogam nos dias de hoje muitos pesquisadores.

Acatar esta data como correta nos coloca mais próximos de outros resultados consequentes, mais aceitáveis à luz daquilo que a Escritura nos revela, tal como o fato de Jesus ter cerca de 33 anos ser crucificado, e haver nascido entre 3 AC e 2 AC, o que também se coaduna mais com o parecer da igreja primitiva.

https://cronologiadabiblia.wordpress.com/2011/10/05/a-estrela-de-belem/

3 comentários

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3 responses to “A questão da morte de Herodes

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  3. Ronaldo Terminiello

    Segundo minha investigação, esses fatos são questionáveis. É fato conhecido, que jesus nascera no mês sétimo e outro fato incontestável, é que nasceu no dia 10. Existe várias considerações, mas somente por meio das revelações já alcançadas. Os dados históricos estão muito confusos, e é preferível permanecer na própria palavra. Jesus segundo as revelações, voltará na ocasião de seu aniversário. Ele morreu na pascoa, mas nasceu no YomKippur. !!??