O Anno Domini e Dionísio, o Exíguo

Conclui-se, pelo visto anteriormente, que a reforma gregoriana nada tem a ver com a determinação do Anno Domini, ano 1 de nossa era, supostamente o ano de nascimento de Jesus,  que já estava determinado e era reconhecido no calendário juliano.

Esta data foi fixada pelo monge católico Dionísio, o Exíguo, no ano 525 DC, em decorrência de um trabalho de compilação da tabela para determinar a Páscoa nos anos futuros, que naquele tempo eram calculadas tendo por base o calendário juliano.

Seria um trabalho de continuidade da tabela anterior, que por uso e costume, era contada a partir da era diocleciana. Era costume contar eventos importantes a partir do início do reinado dos imperadores romanos, neste caso da tábua pascal vigente na época, a contagem era feita a partir de Diocleciano.

Diocleciano, imperador romano entre 284 e 305 DC, é notoriamente reconhecido por sua capacidade administrativa. Implantou profundas reformas no império, que contribuíram para adiar o declínio de Roma e criaram as bases do império bizantino.

De origem humilde, Diocleciano fez carreira militar chegando a comandante da guarda imperial e  posteriormente a cônsul, tendo sido reconhecido imperador pelo senado após matar Árrio Áper, assassino de Numeriano, o imperador que o antecedeu.

Entre suas reformas, impôs o latim como língua oficial do império, e também obrigou os agricultores a se fixar no campo, proibindo-os de abandoná-lo, suprimindo desta maneira, a liberdade individual. Seu tempo ficou conhecido como a era dos mártires, marcada pela perseguição dos cristãos, tendo ordenado em 303 DC, a destruição das igrejas, e a demissão dos cristãos do serviço público.

Para não continuar a se referir a Diocleciano na sua tabela pascal, Dionísio propôs que a contagem fosse referenciada a partir do nascimento de Jesus, trabalho este apresentado através da “Liber de Paschate”, publicado em 525. Foi assim introduzido o Anno Domini, suposto ano de nascimento de Jesus, fixado por Dionísio em 753 AUC (Anno Urb Conditae), portanto, ano 1.

Muito tempo depois a data veio a ser questionada em função de a morte de Herodes, o Grande, ser historicamente reconhecida como tendo ocorrido, de acordo com o calendário gregoriano, em 4 AC. Sabendo-se que Herodes era vivo no tempo do nascimento de Jesus, supõe-se que seu nascimento tenha ocorrido um ou dois anos antes disto, em 5 ou 6 AC.

Não se pode dizer que Dionísio tenha errado a data de nascimento de Jesus, quando parece  mais certo entender que se trata apenas de uma convenção por ele utilizada, sem que se saiba maiores detalhes da razão pela qual tenha chegado a esta conclusão. Teria, desta forma, ignorado a opinião de alguns pais da igreja que colocavam o nascimento de Jesus antes disto. Irineu, Clemente de Alexandria e Cassiodoro, por exemplo, reconheciam o ano 751 AUC, correspondente a 3 AC, enquanto Julis Africanus admitia 2 ou 3 AC. Tertuliano, Orígines, Eusébio de Cesaréia, Jerônimo e Hipólito, reconheciam o ano 752 AUC (2 AC).

Como Dionísio estabeleceu que Jesus teria nascido em 25 de Dezembro,  e como o ano juliano se inciava em 21 de Abril, convencionou-se posteriormente que o ano de seu nascimento seria 754 AUC, e desta forma, conforme o paradigma estabelecido pelo próprio Dionísio, Jesus teria nascido em 1 AC. De qualquer maneira, Dionísio não refere claramente que fosse esta a data de nascimento de Jesus, ou a data de sua encarnação, o que poderia ser entendido como concepção. É sobre este tema que nos ocuparemos adiante.

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