O Cilindro de Ciro – Parte 3

543 AC – (Anno Mundi 3353) – a libertação do cativeiro
Exatamente no primeiro ano de Ciro se cumpre a profecia de Jeremias 29:10 referente ao final do exílio babilônico: “Porque assim diz o Senhor: Certamente que passados setenta anos em Babilônia, vos visitarei, e cumprirei sobre vós a minha boa palavra, tornando a trazer-vos a este lugar.”

Conforme o Livro de Esdras, Ciro decretou em seu primeiro ano de governo a libertação dos judeus (Ed 1:1-3), atendendo desta forma seu desejo particular de ver o templo de Jerusalém reconstruído.

Tal fato encontra-se também descrito no Cilindro de Ciro, nos parágrafos 32 a 35. De acordo com esta crônica, não só os judeus foram beneficiados por esta decisão, como também vários outros povos, que tanto puderam retornar às suas terras de origem, como tiveram seus santuários reconstruídos e seus deuses devolvidos aos seus templos. Vejamos novamente o que nos diz o texto:

“32 – Eu juntei todo o seu povo e os retornei a seus lugares de origem, 33 – e os deuses da terra da Suméria e Acádia, os quais Nabonido – a fúria do senhor dos deuses – havia trazido para Shuanna, sobre o comando de Marduke, o grande senhor, 34 – eu os retornei ilesos às suas células, aos santuários que os fazem felizes. Possam todos os deuses que fiz retornar a seus santuários, 35 – todos os dias perante Ball e Nabú, pedir longa vida para mim, e mencionar minhas boas ações, e dizer a Marduke, meu senhor, isto: Ciro, o rei que o teme, e Cambises, seu filho, …” (o texto se encontra danificado neste ponto) (Cilindro de Ciro)

A questão crucial aqui é, portanto, apontar a partir de que ano se inicia a contagem dos 70 anos de exílio, uma vez que, conforme visto, temos três levas distintas de exilados.

A conclusão é que a contagem não se inicia a partir de nenhum destes exílios, mas sim, a partir da chegada de Daniel à Babilônia no terceiro ano de Jeoiaquim, quando junto com seus companheiros passam a viver na corte de Nabucodonosor, em 612 AC, Anno Mundi 3284.

Somados 70 anos a esta data (3284 + 69 = 3353) resulta que o final do exílio se deu no Anno Mundi 3353, 543 AC.

Porque assim diz o Senhor: Certamente que passados setenta anos em Babilônia, vos visitarei, e cumprirei sobre vós a minha boa palavra, tornando a trazer-vos a este lugar. (Jr 29:10)

Muitos autores insistem em que os 70 anos de exílio, conforme a profecia de Jeremias (Jr 29:10) seja uma data simbólica, associando este fato ao uso do número 70 como número absoluto, como no exemplo do Evangelho de Mateus onde Jesus nos ensina que devemos perdoar uma pessoa tantas vezes quanto se faça necessário: “Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete.” (MT 18:22)

Neste caso, os 70 anos de Jeremias significariam “certo tempo”, ou “o tempo necessário para a correção do povo”. Pensando desta forma e verificando que entre a primeira deportação no Anno Mundi 3291 (605 AC) e o exílio se passaram apenas 62 anos, ou ainda 51 anos contados a partir da deportação que precede a destruição do templo em 594 AC, logo concluem ser os 70 anos simbólicos.

Uma passagem bíblica que induz a esta conclusão se encontra no próprio relato de Daniel quando no primeiro ano de Dario medita a respeito de quando findaria o exílio.

Como na sequência deste fato Daniel é instruído por Gabriel acerca das 70 semanas proféticas, logo concluem que os 70 anos são também simbólicos ou são uma coisa só. Verifique você mesmo que não são um só assunto, como também se o fossem, uma coisa não agregaria valor à outra. São coisas distintas.

Daniel conhecia as profecias de Jeremias a respeito do tempo do exílio, e sabe, portanto, que o exílio se daria após o final do império babilônico.

No primeiro ano de Dario, medita Daniel que a Babilônia é agora colônia persa e desta forma se põe a pensar por qual razão estão ainda os judeus debaixo do cativeiro. Vejamos o texto: “No ano primeiro de Dario, filho de Assuero, da linhagem dos medos, o qual foi constituído rei sobre o reino dos caldeus, No primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, entendi pelos livros que o número dos anos, de que falara o Senhor ao profeta Jeremias, em que haviam de cumprir-se as desolações de Jerusalém, era de setenta anos.” (Dn 9:1-2)

Aparentemente não há muito que entender, uma vez que os textos proféticos repetiam que o exílio duraria setenta anos, mas Daniel tenta entender a partir de quando começariam a ser contados os setenta anos.

Daniel recorda os textos relacionados à profecia “Acontecerá, porém, que, quando se cumprirem os setenta anos, visitarei o rei de Babilônia, e esta nação, diz o Senhor, castigando a sua iniqüidade, e a da terra dos caldeus; farei deles ruínas perpétuas. E trarei sobre aquela terra todas as minhas palavras, que disse contra ela, a saber, tudo quanto está escrito neste livro, que profetizou Jeremias contra todas estas nações. Porque também deles se servirão muitas nações e grandes reis; assim lhes retribuirei segundo os seus feitos, e segundo as obras das suas mãos.” (Jr 25:12-14)

No primeiro ano de Dario, 68 anos haviam se passado desde que ele, Daniel, e seus amigos foram levados à Babilônia.

Daniel recorda que dois anos antes de seu exílio, Nabucodonosor, ainda na qualidade de filho do rei da Babilônia, invadira a Tribo de Judá, conforme lemos em 2 Rs 24:1-2: “Nos seus dias (Jeoiaquim) subiu Nabucodonosor, rei de Babilônia, e Jeoiaquim ficou três anos seu servo; depois se virou, e se rebelou contra ele. E o Senhor enviou contra ele as tropas dos caldeus, as tropas dos sírios, as tropas dos moabitas e as tropas dos filhos de Amom; e as enviou contra Judá, para o destruir, conforme a palavra do Senhor, que falara pelo ministério de seus servos, os profetas.” (2 Rs 24:1-2)

De fato, considera Daniel, já haviam passado os 70 anos depois dos quais Deus castigaria a Babilônia. Mas quando viria então o final do exílio do povo? A data estaria próxima, faltavam apenas dois anos se considerasse que seu próprio exílio marcasse o início da contagem.

Desta forma, os 70 anos para que viesse o castigo sobre a Babilônia já haviam se passado, restavam apenas dois mais para que o povo fosse libertado. Foi esta a compreensão que Daniel teve na ocasião.

Para que se cumprisse a palavra do Senhor, pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da assolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram. (2 Cr 36:21)

Fala a todo o povo desta terra, e aos sacerdotes, dizendo: Quando jejuastes, e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante estes setenta anos, porventura, foi mesmo para mim que jejuastes? (Zc 7:12)

Acontecerá, porém, que, quando se cumprirem os setenta anos, visitarei o rei de Babilônia, e esta nação, diz o Senhor, castigando a sua iniqüidade, e a da terra dos caldeus; farei deles ruínas perpétuas. (Jr 25:12)

A palavra do Profeta Zacarias pronunciada no 4º ano de Dario I,o Grande, não o medo, mas o filho de Cambises, neto de Ciro, quando o exílio já é passado, também nos fala que os 70 anos foram literais: “Fala a todo o povo desta terra, e aos sacerdotes, dizendo: Quando jejuastes, e pranteastes, no quinto e no sétimo mês, durante estes setenta anos, porventura, foi mesmo para mim que jejuastes?” (Zc 7:5) Neste texto o profeta critica o gesto automático de penitência do povo durante os 70 anos de exílio.

Há no Antigo Testamento apenas quatro “pontes cronológicas”, ou seja, grandes extensões de datas referidas por profecias: O Êxodo, que se deu 400 anos depois do nascimento de Isaque (Gn 15:13); Os 480 anos desde o Êxodo até o início da construção do Templo no quarto ano de Salomão (1 Rs 6:1), e os 70 anos do exílio babilônico.

Nada indica que nenhuma delas tem sentido simbólico, são todas literais. A quarta delas, no entanto, referida nas visões de Daniel (Dn 9:24) é simbólica e traz na sua interpretação a última “ponte cronológica” do Antigo Testamento, justamente aquela que irá cruzar todo o período intertestamentário, ou seja, o período de tempo coberto entre o fim do Antigo Testamento e o começo do Novo Testamento, e nos revelar a data da crucificação de Jesus.

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3 comentários

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3 responses to “O Cilindro de Ciro – Parte 3

  1. Tenho pra mim que esta muito enganado, amado. O Exilio se deu em 605 a.C tem que contar a partir daí. Ciro, começa a governar em 539 a.C, capítulo 4 de Daniel, saiu Belsazar e Ciro coloca Dario pra governar e ao mesmo tempo dá ordem em 538 a.C pra Israel voltar a Jerusalem e dois anos demoram dois anos para os judeus voltarem e chegarem a Jerusalem. Muitas das datas qeu colocou aí não batem com relato bíblico, porquê contou de 612 a.C. Toda contagem começa quando Nabucodonosor toma Jerusalem, o exílio terminou por volta de 536 ou 535 a.C, pois 70 anos antes dá 605 ou 606 a.C, tempo em Jerusalem foi invadida por Nabucodonosor.
    http://www.javerevela.com.br/

  2. Pingback: Índice (clique para acessar) | Cronologia da Bíblia

  3. Olá
    Aprecio muito as matérias do site, porém, alguns detalhes não consigo estar de acordo.
    Por exemplo, no quadro acima da prováveis datas e eventos, você estabelece o ano 543 a.C. como sendo o da libertação dos judeus, bem como da saída da ordem p/ edificar o templo – feita por Ciro.
    E também conclui o ano 542 a.C. como sendo do início da obra do templo; estabelecendo também o ano 541 a.C. como o da interrupção da mesma obra do templo por 13 anos.
    Mas acontece que a ordem da edificação do templo foi um edito imperial do rei Ciro – e por todo o seu reinado não houve edito de se parar a obra – era ordem imperial – embora os inimigos dos judeus pudessem arquitetar meios de os frear na edificação, através de idéias e rumores.
    Também a Bíblia diz afirma que somente no reino de Artaxerxes (depois de Ciro) é que se interrompe a obra de edificação – ficando estagnada até o 2º ano do rei Dario.
    Por isso não concordo c/ estas datas propostas…