A Crônica de Nabonido – Parte 2

546 AC – (Anno Mundi 3350) – o 17º ano de Nabonido
“Ano dezessete – Nabú veio de Borsippa para o cortejo de Bel (senhor, Baal, nome supremo do deus Marduke que raramente era escrito ou pronunciado)…[…lacuna…].

O rei adentrou no templo de Eturkalama; no templo fez libação de vinho. Bel saiu em cortejo. Celebraram o festival do Ano Novo de acordo com o ritual completo (seria o dia 4 de abril).

No mês de Âbu Lugal-Marada e outros deuses das cidades de Marada, Zabada, e os outros deuses de Kish, a deusa Ninlil e outros deuses de Hursagkalama visitaram Babilônia.

Até o fim do mês de Ululu todos os deuses de Acádia, aqueles do alto e os das profundezas entraram na Babilônia. Os deuses de Borsipa, Cuta, e Sipar não entraram.

No mês de Tasritu, quando Ciro atacou o exército de Acádia em Opis, no Rio Tigre, os habitantes de Acádia se revoltaram, mas ele (Ciro) massacrou a população.

O décimo quinto dia (seria 12 de outubro em nosso calendário) Sipar foi tomada sem batalha. Nabonido fugiu.

No décimo sexto dia, Gobrias (literalmente Ugubaru), o governador de Gutium, e o exército de Ciro entraram na Babilônia sem batalha.

Depois dito Nabonido foi preso na Babilônia quando para lá retornou. Até o final do mês, os escudos que carregavam os gutianos permaneceram em Eságlia, mas ninguém carregava armas em Eságlia e seus edifícios.

O tempo correto para a cerimônia não foi esquecido. No mês de Arashamna, no terceiro dia (29 de outubro), Ciro entrou na Babilônia, [.. objetos não identificados no texto…] foram postos diante dele – o estado de paz foi imposto sobre a cidade.

Ciro enviou saudações para toda a Babilônia. Gobrias, seu governador, instalou subgovernadores na Babilônia.

Desde o mês de Kislimu até o mês de Addaru (3 meses), os deuses de Acádia os quais Nabonido fez vir para a Babilônia foram retornados para suas cidades sagradas.

No mês de Arahsamna, na noite do dia 11, Gobrias morreu (equivalente a 6 de novembro).

No mês de Addaru, a [… lacuna…] dia, a esposa do rei faleceu.

Desde o dia 27 de Adarru até o terceiro dia de Nisãnu (seria 20-26 de Março), um lamento oficial foi feito em Acádia. Todo povo veio com seus cabelos desalinhados.

Quando no quarto dia Cambises, filho de Ciro, veio ao templo de […lacuna…], o sacerdote de Nabú a quem […lacuna…] o touro [… lacuna…] Eles vieram e fizeram acenos quando levou a imagem de Nabú [… lacuna…] lanças e aljavas de couro, desde [… lacuna…] Nabú retornou a Eságlia, ofertas de ovelhas perante Bel e o deus Marbiti.” (Crônica de Nabonido)

Um primeiro comentário bastante relevante é que nitidamente a partir do 17º ano a Crônica de Nabonido se transforma praticamente numa espécie de “Crônica de Ciro”, quando reporta acontecimentos nitidamente favoráveis a este.

Não há, portanto, fantasias históricas nos relatos de Nabonido, apenas a verdade. Este fato poderia sugerir que a última parte da crônica possa ter sido escrita a mando de Ciro, ou ainda toda ela, utilizando anotações preservadas pelo próprio Nabonido para esta finalidade.

Não é no entanto, nossa intenção explorar aqui as razões à volta deste documento, mas sim relatar o seu conteúdo.

O 17º ano de Nabonido é o ano da queda da Babilônia. É o ano mais interessante do ponto de vista de complementação da informação bíblica pois explica por exemplo a ausência de Nabonido da cidade e nos introduz a figura de Gobrias, personagem que sugere fortemente ser Dario, o medo, registrado em Daniel.

Neste ano, de acordo com Dn 5, precisamente no dia em que se deu a queda da Babilônia, o rei Belsazar deu um banquete para duas mil pessoas e mandou utilizar para este evento as taças de ouro que Nabucodonosor havia tirado do Templo em Jerusalém.

Esta passagem é sobejamente conhecida, mas vale a pena mencionar três citações importantes, todas mencionando o fato de que aquele que interpretasse a visão de Belsazar seria o “terceiro” mais importante no reino, a saber, os versos 7, 16 e 29, das quais citamos a primeira: “Qualquer que ler este escrito, e me declarar a sua interpretação, será vestido de púrpura, e trará uma cadeia de ouro ao pescoço e, no reino, será o terceiro governante.” (Dn 5:7)

Por outorgar o “terceiro” posto mais importante na Babilônia, subentende-se que haveria ainda duas pessoas acima daquele que interpretasse o texto, a saber, o próprio Belsazar, e seu pai, Nabonido, este sim, rei da Babilônia. Dizem os versos finais deste capítulo que Belsazar entendeu que a interpretação de Daniel era correta e mandou que o proclamassem o “terceiro” na Babilônia.

Naquela mesma noite Belsazar foi morto e Dario, o medo, ocupou o trono em seu lugar. (Dn 5:29-31)

Há dois Darios mencionados na Bíblia no contexto pós-babilônico: este Dario que ocupa a Babilônia, conforme nos reporta o Profeta Daniel (Dn 5:31) e o do tempo de Esdras, Dario, o Grande, conforme veremos adiante.

Na sequência da queda da Babilônia, Daniel nos revela que Dario tinha na ocasião 62 anos de idade e era filho de Assuero, da linhagem dos medos (Dn 9:1), e desta forma se distinguia como “o medo”.

Conforme o Livro de Daniel, logo que assumiu o poder na Babilônia, nomeou 120 “príncipes”, ou “sátrapas” para governarem sobre as províncias da Babilônia, e sobre estes, destacou três que atuavam como presidentes, sendo Daniel um deles.

Como Daniel se sobressaísse sobre todos, criou-se uma intriga que culminou no conhecido episódio de Daniel na cova dos leões, tendo este evento ocorrido, portanto, nos tempos de Dario.

A história secular lhe nega a existência, uma vez que, segundo os mesmos, não há comprovação histórica de sua pessoa nos dias da queda da Babilônia.

O relato de Daniel, conforme todo seu capítulo 5, mostra que foi Dario quem tomou a cidade, e não Ciro, o que também comprova a Crônica de Nabonido. Vejamos o texto de Dn 5:30-31: “Naquela noite foi morto Belsazar, rei dos caldeus. E Dario, o medo, ocupou o reino, sendo da idade de sessenta e dois anos.”

Para efeito de comparação com os textos bíblicos, passamos na sequência a examinar os principais fatos disponíveis sobre o assunto na Crônica de Nabonido, pois, toda prova histórica exige uma contraprova, ou seja, uma segunda experiência que se destina a verificar a exatidão da primeira.

A primeira coisa, no entanto, que devemos notar, é que a providência de Deus fez com que tais documentos estivessem depositados no Museu Britânico, sob a guarda da Rainha da Inglaterra, e, neste caso, não há no mundo um guardião mais crível para estas provas.

O fato de estarem disponíveis para visitação no Museu Britânico, bem como poderem ser acessados na íntegra pela internet é deveras valioso, pois quando se fala de história, ou ciência, ou do conhecimento em geral, nestes dias em que contamos com o auxílio insubstituível da internet, a coisa mais fácil do mundo é encontrar uma informação, mas é sabido de quanta coisa sem valor circula pela rede, o que possibilita, desta forma, a indução de vários erros, desde citações atribuídas a quem nunca as citou até eventos que nunca aconteceram, ou recomendações médicas produzidas por irresponsáveis que as atribuem a esta ou aquela fonte, prejudicando ou até matando pessoas crédulas que as utilizam. Quem ainda não pode comprovar alguma destas coisas por si mesmo?

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2 comentários

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2 responses to “A Crônica de Nabonido – Parte 2

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  2. GENTIL PAULO DA COSTA

    ótimo esta cronologia bíblica