Ezequias – a relação de datas com Oséias

A relação de datas de Oséias com Ezequias

1 – Conforme 2 Rs 18:9-10: “no quarto ano do rei Ezequias (que era o sétimo ano de Oséias, filho de Elá, rei de Israel), que Salmanasar, rei da Assíria, subiu contra Samaria, e a cercou. E a tomaram ao fim de três anos, no ano sexto de Ezequias, que era o ano nono de Oséias, rei de Israel, quando tomaram Samaria.”

2 – De acordo com 2 Rs 18:1 foi no 3º ano de Oséias que Ezequias começou a reinar sobre Judá. O 1º ano Ezequias, seria, portanto, o Anno Mundi 3168.

3 – Neste caso, o 4º ano de Ezequias seria o Anno Mundi 3171, 6º ano de Oséias e não o 4º, bem como, contrastando com o verso 10, o 9º ano de Oséias seria o 7º de Ezequias e não o 6º.

4 – Este descompasso seria facilmente corrigido se simplesmente houvesse uma maneira de deslocar o início de Ezequias para o ano posterior, o que aparentemente não é possível, pois há um sincronismo fechado entre estas datas, o que implica que em se deslocando o início de Oséias um ano a frente, implicaria concluir que Oséias reinou 8 anos e não 9.

5 – Veja em sua Bíblia que o verso 9, que relaciona o 4º ano de Ezequias com o 7º de Oséias vem anotado entre parêntesis, o que significa que não se encontra esta anotação nos textos mais antigos.

Este tipo de anotação sugere para alguns que se trata de uma inserção incluída pelo copista, o que não é de maneira uma conclusão sábia, uma vez que justamente este copista poderia ter em mãos o texto correto e os outros que a omitem terem os incorretos.

6 – Mas para além do verso 9 existe o verso 10 que diz que o 6º ano de Ezequias seria o ano 9º de Oséias, e neste verso não há parêntesis.

7 – Não só no caso destas passagens, como também em quaisquer outras semelhantes com a qual possamos nos defrontar na Bíblia, nunca é o caso de perguntar qual versículo está errado, ou qual é o certo. Todos estão absolutamente corretos.

8 – O que o caso em questão nos revela é que há duas contagens distintas para os anos de Ezequias: uma que se inicia no ano de sua ascensão e que valida a duração de seu reinado, e a segunda que não conta o ano de ascensão de Ezequias.

9 – A Seder Olam Rabbah, que por várias vezes mencionamos neste trabalho, é repleta de exemplos de que isto acontece costumeiramente dentro do judaísmo. No caso da Seder, dois rabinos podem opinar de maneira complementar sobre um mesmo texto bíblico a fim de que ele se torne mais informativo.

10 – No caso em questão não se pode sequer cogitar a possibilidade de erro, porque ele seria altamente improvável, uma vez que o verso 1 do capítulo 18 de 2 Rs diz que Ezequias começou a reinar no 3º ano de Oséias, e poucas linhas adiante, nos versos 9 e 13 utiliza outro tipo de contagem que faz defasar o sincronismo de datas em um ano. São tão notáveis que nos obrigam, sim, a entender que o redator nos chama a atenção sobre o seu significado.

11 – Por que razão o redator teria colocado no mesmo contexto duas formas diferentes de contar o tempo? As referências devem ser observadas com atenção. No caso da contagem de tempo que faz a simetria dos versos 4 com 7 e 6 com 9, o cronista mostra a contagem dos anos de Ezequias a partir do ano seguinte à sua posse. Por qual razão? É oportuno recordar que um fato semelhante aconteceu com Jeroboão, que conforme visto, foi considerado pelo redator rei de Israel dois anos antes da morte de Salomão, cuja conclusão nos é induzida pela compreensão da simetria das datas do seu governo.

O culto fiel ao Deus de Israel havia sido esquecido há tempos, a ponto de se constatar que desde os dias de Salomão a Páscoa não era celebrada (2 Cr 30:26). Foi no primeiro ano de seu reinado que Ezequias fez um pacto com Deus: “Agora me tem vindo ao coração, que façamos uma aliança com o Senhor Deus de Israel, para que se desvie de nós o ardor da sua ira. Agora, filhos meus, não sejais negligentes; pois o Senhor vos tem escolhido para estardes diante dele para o servirdes, e para serdes seus ministros e queimadores de incenso.” (2 Cr 29:10-11)

A redação que lemos em Reis e Crônicas sobre o reinado de Ezequias foi escrita mais de um século depois de sua morte. Desta perspectiva, o cronista pode querer nos mostrar que a desobediência a Deus levou Israel à ruína. Mostra também que simultaneamente à queda de Israel Deus colocara em Judá um rei justo e fiel, que se dedica majoritariamente em seu governo a restabelecer e fortalecer a relação do povo com seu Deus.

Ezequias passou a reinar oficialmente no ano da morte de Acaz, seu pai, um péssimo rei para Judá. Talvez um novo início de contagem do governo de Ezequias a partir da restauração do culto fiel a Deus no ano seguinte seja a justificativa para os dois registros, ou talvez não seja, podendo haver outra explicação. No entanto, seja como for, não há a menor possibilidade de erro neste registro.

A sobrevivência de Israel
Costumeiramente somos levados a pensar que Israel deixou de existir a partir da invasão assíria, mas a Bíblia se pronuncia contra esta assertiva, já a partir do relato sobre o governo do próprio Ezequias. O capítulo 30 de 2 Crônicas nos descreve uma nova realidade na vida de Israel. Ezequias, depois de implantar rigorosas reformas religiosas, toma a iniciativa de celebrar a Páscoa. Manda cartas convidando todo o povo a participar da celebração, não só os de Judá, como também os de Israel, “o restante de vós que escapou da mão dos reis da Assíria” (2 Cr 30:6)

Além de significar uma troca de governo na Assíria durante o processo de invasão de Israel, dá a entender que boa parte do povo já se encontrava no exílio, mas muitos israelitas permaneciam ainda na terra.

A realidade da Samaria era agora diferente: não possuíam mais autonomia política, uma vez que eram colônia assíria; Não havia rei e habitava entre eles o povo de Chut, os chutenses, conforme os qualifica Flávio Josefo.
Dentro desta nova realidade seria possível compreender que desapareceram todas as dez tribos do norte? O próprio texto nos responde: “todavia alguns de Aser, e de Manassés, e de Zebulom, se humilharam, e vieram a Jerusalém.” (2 Cr 30:11);

Lemos ainda em 2 Cr 30:18-20: “Porque uma multidão do povo, muitos de Efraim e Manassés, Issacar e Zebulom, não se tinham purificado, e contudo comeram a Páscoa, não como está escrito; porém Ezequias orou por eles, dizendo: O Senhor, que é bom, perdoa todo aquele Que tem preparado o seu coração para buscar ao Senhor Deus, o Deus de seus pais, ainda que não esteja purificado segundo a purificação do santuário. E ouviu o Senhor a Ezequias, e sarou o povo.”

O Israel do norte não desapareceu por completo. Perdeu a sua identidade nacional. Cento e vinte e oito anos depois da queda de Israel, Deus, pela instrumentalidade do Profeta Jeremias condenará o reino de Judá ao mesmo destino (Jr 20).

Outros cento e vinte e oito anos depois da queda de Jerusalém até o retorno dos exilados liderados por Esdras (Ed 8:31), ele próprio nos revela que depois do exílio babilônico, não há a Tribo de Judá, mas sim, as doze tribos de Israel: “E os filhos de Israel, os sacerdotes, os levitas, e o restante dos filhos do cativeiro, fizeram a dedicação desta casa de Deus com alegria. E ofereceram para a dedicação desta casa de Deus cem novilhos, duzentos carneiros, quatrocentos cordeiros, e doze cabritos por expiação do pecado de todo o Israel; segundo o número das tribos de Israel.” (Ed 6: 16-17)

Tiago em sua epístola se dirige à nação israelense: “Tiago, servo de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos que andam dispersas, saúde.” Tg 1:1

Jesus foi habitar nos confins de Zebulom e Naftali quando deixou Nazaré (MT 4: 13); Quando José e Maria levam Jesus ao templo encontram ali uma descendente de Aser: “E estava ali a profetisa Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Esta era já avançada em idade, e tinha vivido com o marido sete anos, desde a sua virgindade” Lc 2:36

Definitivamente Israel sobreviveu ao cativeiro assírio e há nesta altura apenas uma liderança política dentro das bordas do Israel antigo: Ezequias, o descendente de Davi.

Ezequias reinou até o Anno Mundi 3096, quando foi sucedido por Manasses, seu filho. Durante seu governo, apenas Oséias reinou 7 anos sobre Israel.

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