Os 349 anos do período dos Juízes

Para se estabelecer a cronologia do tempo de Juizes é necessária a observância de regras e exceções que se fazem valer neste período, pois a leitura textual do livro nos conduz invariavelmente a erros. São basicamente tres regras:

1 – Os 8 anos de opressão da Mesopotâmia são contados integralmente após o fim da geração de Josué e antes de Otoniel, primeiro juiz de Israel;
2 – Os demais tempos de opressão dos inimigos não podem ser computados, uma vez que coincidem com o tempo dos juizes;
3 – O tempo de Abimeleque, filho de Gideão, não é contado com os demais juizes pois trata-se apenas de um usurpador.

Vejamos, primeiramente, por que os períodos de opressão dos inimigos não podem ser somados ao tempo dos juizes.

Observe a tabela anterior: Ela contém todos os números citados no Livro dos Juizes. A coluna esquerda contém os anos de dominação de cada juiz, a do meio os anos de opressão, e a da direita a somatória de ambos. Se somarmos, conforme vemos na coluna à direita, todas as datas mencionadas em Juízes, temos o resultado de 455 anos para todo o período, que é o cômputo do tempo de todos os juízes, acrescido do todos os tempos de opressão mencionados, incluindo-se os 3 anos de Abimeleque.

Note que a somatória dos dois tempos, juizado e opressão, entre o início do domínio da Mesopotâmia até o início de Jefté totaliza na coluna à direita 319 anos, e conforme Jz 11:26, passaram-se apenas 300 anos entre a conquista de Hesbom ( no 40º ano da perigrinação no deserto) e o primeiro ano de Jefté.

Somando-se os 47 anos decorridos entre a tomada de Hesbom e o início da opressão da Mesopotâmia, mais estes 319 anos resultam 366 anos, o que descarta a possibilidade de serem somadas as opressões.

Quando tomamos em conta o sincronismo que ocorre no início de Jefté, o oitavo juiz, somos levados a compreender que os anos de juizado ocorrem em simultâneo com os tempos de opressão e desta forma não podem ser somados.

Pela cronologia de Juízes não é possível concluir claramente quando se inicia o tempo de um determinado juiz, visto que este tempo se refere ao período que leva o nome do juiz e não propriamente à extensão de seu domínio sobre o povo. Para entender a cronologia de Juízes é preciso entender primeiro sua dinâmica. Os versos seguintes são uma coletânea extraída de Jz 3:12-30 e mostram bem esta dinâmica. Vejamos o que dizem:

“12 Porém os filhos de Israel tornaram a fazer o que era mau aos olhos do Senhor; então o Senhor fortaleceu a Eglom, rei dos moabitas, contra Israel; porquanto fizeram o que era mau aos olhos do Senhor.
13 E reuniu consigo os filhos de Amom e os amalequitas, e foi, e feriu a Israel, e tomaram a cidade das palmeiras.
14 E os filhos de Israel serviram a Eglom, rei dos moabitas, dezoito anos.
15 Então os filhos de Israel clamaram ao Senhor, e o Senhor lhes levantou um libertador, a Eúde, filho de Gera, filho de Jemim, homem canhoto. E os filhos de Israel enviaram pela sua mão um presente a Eglom, rei dos moabitas. (…)
20 E Eúde entrou numa sala de verão, que o rei tinha só para si, onde estava sentado, e disse: Tenho, para dizer-te, uma palavra de Deus. E levantou-se da cadeira.
21 Então Eúde estendeu a sua mão esquerda, e tirou a espada de sobre sua coxa direita, e lha cravou no ventre, (…)
29 E naquele tempo feriram dos moabitas uns dez mil homens, todos corpulentos, e todos os homens valorosos; e não escapou nenhum.
30 Assim foi subjugado Moabe naquele dia debaixo da mão de Israel; e a terra sossegou oitenta anos.”

Estes versos são na essência a base daquilo que irá se repetir por toda a história de Juízes. O povo peca; Deus levanta contra ele uma nação para castigá-lo; o povo clama pelo perdão de Deus; Deus levanta um libertador; a paz retorna.

O povo peca e Deus levanta Eglon contra Israel. O povo clama e Deus levanta Eúde que liberta o povo e a terra sossega por 80 anos. O raciocínio natural decorrente desta leitura nos levaria a montar a seguinte contagem de tempo:

No entanto, é esta a leitura que a lógica de Juízes nos obriga a fazer.:

Os tempos declarados em Juízes referentes à extensão de um juizado, significam, a princípio, que um Juiz segue ao outro, ininterruptamente, e que o tempo de opressão está sempre contido no tempo do juizado. Findo o tempo de um juiz inicia-se o tempo de seu sucessor.

No entanto, não se deve ter como certo que o período declarado para um determinado juiz seja de fato equivalente ao tempo durante o qual ele dirigiu o povo. Significa, sim, que o tempo daquele juiz se conta a partir da opressão sofrida por parte do inimigo até a morte do juiz, ou até o fim daquele período, que não obrigatoriamente está vinculado à sua morte e também não garante que ele era juiz quando começou a opressão.

Os 40 anos de Otoniel são seguidos pelos 80 anos de Eúde, que por sua vez são seguidos pelos 40 anos de Débora, que são seguidos pelos 40 anos de Gideão, que são seguidos pelos 23 anos de Tola, e assim por diante.

Eúde é um exemplo mais completo: ele não governou o povo por 80 anos, mas estes 80 anos são conhecidos na história de Israel como o tempo de Eúde, que começou após a morte de Otoniel com a opressão dos moabitas.

Esta opressão vai durar 18 anos, e ao fim deste tempo Deus o levanta para libertar o povo, o que toma certo tempo, e depois de libertado o povo, a paz se estende até o final dos referidos 80 anos. Este é o período de Eúde. É assim que a história deve se referir àqueles 80 anos, bem como ao tempo dos demais juízes.
Esta é a forma que o redator encontrou de marcar a história de Israel no tempo dos Juízes. Vê-se isto claramente no texto que se refere a Débora, conforme Jz 4:4: “E Débora, mulher profetisa, mulher de Lapidote, julgava a Israel naquele tempo.”.

Débora não assume o papel de Juíza por conta de uma crise com outros povos, mas já julgava Israel quando veio a acontecer a crise com o rei de Canaã. Entretanto, aqueles 40 anos são conhecidos na história de Israel como o tempo de Débora, entre Eúde e o início de Gideão, embora em seu tempo, Sangar tenha libertado Israel das mãos dos filisteus. Mesmo assim, não há o que se chamaria de tempo de Sangar. Ele vem a ocorrer dentro do período de Débora.

Pode não parecer natural fazer a leitura de Juízes desta forma, mas ela é um efeito colateral matemático e não há outra maneira de raciocinar porque o período de Juízes está encarcerado entre duas datas bastante concretas: a localização exata do início de Otoniel em 2542 A.M. e o início de Saul como primeiro rei de Israel em 2883 A.M.

Entre as duas datas há uma diferença de 341 anos, exatamente a somatória dos anos de todos os juízes, o que nos leva ao fim das funções de Samuel como Juiz e à unção de Saul como primeiro rei de Israel.

Anúncios

7 comentários

Filed under Uncategorized

7 responses to “Os 349 anos do período dos Juízes

  1. Pingback: Índice (clique para acessar) | Cronologia da Bíblia

  2. Ozéias

    Quebra cabeça einh

  3. adriano alves

    CONFIRMA O QUE PAULO ESCREVEU EM ATOS CAP. 13 VS 20.

  4. Pingback: 11 – Conquistas, idolatrias e cativeiro | Cezar Azevedo

  5. alex

    Muito bom o estudo ,gostei estou lendo a biblia e me ajudou muito

  6. Adryell

    Bom o estudo, só que 349 + 111 = 460, e não 455.