Comentário sobre a duração do período dos Juízes

Em toda a Bíblia, há apenas um versículo que pretensamente se refere à extenção do período dos Juízes. É o relato de Lucas no capítulo 13 do Livro de Atos dos Apóstolos.

Pretensamente – porque a depender da tradução que foi feita do original grego – pode se entender que Lucas, ou mesmo Paulo, podem ter atribuído cerca de 450 anos de duração para o tempo dos Juízes, o que não é correto.

Lucas reporta neste capítulo (At 13) que Paulo e Barnabé entraram numa sinagoga em Antioquia num dia de sábado, e ao final do serviço lhes foi oferecida a oportunidade de falar.

Paulo tomou a palavra e passou a descrever de maneira breve a história de Israel até chegar a Jesus. Vejamos o texto: “E, levantando-se Paulo, e pedindo silêncio com a mão, disse: Homens israelitas, e os que temeis a Deus, ouvi: O Deus deste povo de Israel escolheu a nossos pais, e exaltou o povo, sendo eles estrangeiros na terra do Egito; e com braço poderoso os tirou dela; E suportou os seus costumes no deserto por espaço de quase quarenta anos.

E, destruindo a sete nações na terra de Canaã, deu-lhes por sorte a terra deles. E, depois disto, por quase quatrocentos e cinqüenta anos, lhes deu juízes, até ao profeta Samuel.” (At 13:16-20)

O texto acima foi extraído da versão João Ferreira de Almeida – Corrigida e Fiel ao Texto Original, que por sua vez, é idêntico à versão inglesa King James: “And after that he gave unto them judges about the space of four hundred and fifty years, until Samuel the prophet.”

Já a versão João Ferreira de Almeida – Edição Revista e Atualizada – da Sociedade Bíblica do Brasil, traduz o verso 20 da seguinte forma: “Vencidos cerca de quatrocentos e cinqüenta anos. Depois disto, lhes deu juízes, até o profeta Samuel.”

Vamos verificar as duas perspectivas, sabendo de antemão que a primeira tradução está errada. Mesmo assim, nenhuma delas alteraria a contagem cronológica, pois esta se baseia somente nos deslocamentos de tempo a que se refere o próprio Livro de Juízes, conforme veremos adiante.

Caso a versão Almeida – Corrigida e Fiel ao Texto Original, bem como a versão King James estivessem corretas, Paulo, ou mesmo Lucas, o autor do texto, teriam errado, pois o período de Juízes se estende por somente 349 anos, do início da opressão da Mesopotâmia até a ascensão de Saul como primeiro rei de Israel.

Não é este o caso, pois nem Paulo nem Lucas erraram, como também não se referem ao tempo dos juízes. O erro foi sim cometido pelo tradutor das referidas versões e é bastante compreensível.

Paulo relata basicamente dois períodos distintos, um que se refere ao tempo decorrido entre a escolha do povo até a conquista de Canaã por Josué e o outro que segue a este, o tempo dos Juízes.

Desta forma, o tradutor, possivelmente em dúvida quanto à ambiguidade do texto grego, não tendo certeza a qual período o texto se refere, teria supostamente consultado o Livro de Juízes e somado todos os tempos ali mencionados, chegando ao resultado de 455 anos. Desta forma ele atribui nas referidas traduções os “quase 450 anos” ao tempo dos Juízes.

Se somar todos os tempos contidos em Juízes, a conta está certa e o raciocínio de quem quer que seja que a fez é coerente, mas o resultado incorreto. O tempo relatado no Livro Juízes se estendeu por 349 anos, e assim, os 450 anos se referem ao período anterior a Juizes.

Não estivessem erradas as traduções citadas, poder-se-ia dizer que o cronista de Juízes aparentemente não se preocupa com a possibilidade de alguém vir a cometer este erro, e desta forma não deixa evidente que o tempo das opressões dos povos vizinhos sobre Israel se sobrepõem ao tempo dos juízes.

Por esta razão é errado soma-los no total, ou ainda que na ótica do redator, bastante sofisticada por sinal, alguém preocupado em marcar a cronologia daquele tempo, deveria se preocupar também em sincronizar os anos dos juízes com o evento já comentado de Jefté, o oitavo juiz de Israel. Não sincronizando conclui que foram 455. Desta forma, traduz como cerca de 450 anos.

O texto original grego, da atual Igreja Ortodoxa Grega, é o seguinte: “20 καὶ μετὰ ταῦτα ὡς ἔτεσι τετρακοσίοις καὶ πεντήκοντα ἔδωκε κριτὰς ἕως Σαμουὴλ τοῦ προφήτου”.

Solicitamos sua tradução a um grego nativo, missionário cristão, de nacionalidade grega, que vive em Atenas atualmente, o qual nos traduz com as seguintes palavras: “Passados quatrocentos e cinqüenta anos. (ponto final – acaba a frase aqui) Depois disto, lhes deu juízes, até o profeta Samuel.” É desta forma que também traduz a versão João Ferreira de Almeida – Edição Revista e Atualizada – da Sociedade Bíblia do Brasil.

Primeiramente há de se notar que há um ponto final depois dos quatrocentos e cinqüenta anos, e também que neste caso, teria sido mais adequado situar a segunda parte do texto no versículo 21 ou ainda, a primeira metade no verso 19.

Nosso tradutor grego acrescenta ainda que os cristãos da Grécia tiveram desde os primórdios do cristianismo apenas uma versão do Novo Testamento até 1904, quando uma versão atualizada foi compilada, a qual está em uso até os dias de hoje.

Ainda assim, o Novo Testamento em uso pelos cristãos gregos traz este texto de 1904 à direita e a reprodução do texto original do lado oposto. Isto mantém a pureza da versão original, uma vez que a Igreja Ortodoxa Grega proibiu desde há muito tempo que se fizessem outras revisões no texto a fim de preservar sua autenticidade.

Nesta tradução, os 450 anos não se referem ao tempo de Juízes, mas sim, aos eventos posteriores à escolha do povo, onde a somatória dos 400 anos desde Isaque até o Êxodo, acrescidos dos 40 anos de peregrinação no deserto, mais algo como 10 anos referentes ao tempo em que Josué toma para conquistar parcialmente Canaã totalizam 450.

Está em acordo com esta tradução, Willian Robertson Nicoll (10 de Outubro de 1851 – 4 de Maio de 1923), jornalista, escritor e ministro da Igreja Livre escocesa nos comentários tecidos em sua obra “The Expositor’s Greek Testament” – Vol 2 – pag. 292, uma das melhores obras comentadas sobre a Bíblia. Nicoll W R, The Expositor’s Greek Testament. Hardcover 1960; Vol 2:292.

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