Os netos de Judá

Para efeito didático, podemos constatar as idades dos filhos de Israel quando da sua chegada ao Egito: Ruben teria 46 anos; Simeão – 45, Levi – 44, Judá – 43, Dã – 43, Naftali – 42, Gade – 42, Aser – 41, Issacar – 41, Zebulon – 40, Diná – 39, José – 39 e Benjamin, o mais jovem, 30 anos. Os gêmeos, Manassés e Efraim, filhos de José, teriam 5 anos de idade.

Gênesis 46 nos dá a lista das pessoas que entraram com Jacó no Egito, de maneira que verificamos que todos os filhos de Jacó já haviam constituído famílias e possuíam filhos. Observe-se, porém, o que nos diz Gn 46:12: “E os filhos de Judá: Er, Onã, Selá, Perez e Zerá; Er e Onã, porém, morreram na terra de Canaã; e os filhos de Perez foram Hezrom e Hamul”.

Dos filhos de Judá, somente Selá, Perez e Zerá entraram com a família no Egito, uma vez que Er e Onã já haviam morrido, mas Perez, já possui na época dois filhos, o que torna Judá o único dos doze filhos de Jacó que seria avô na ocasião. Perez não teria mais que onze anos de idade na ocasião, e seus filhos Hezrom e Hamul, teriam no máximo dois e um ano respectivamente, ou a mesma idade, caso fossem gêmeos.

De acordo com Gênesis, todos os descendentes dos filhos de Jacó nasceram depois da venda de José aos midianitas. Lembremos que entre a venda de José, conforme já vimos, e a ida da família ao Egito, passaram-se apenas vinte e dois anos. Desta forma, Judá, em vinte e dois anos, gerou Er e Onã que morreram; gerou depois disto Perez, e Perez gerou Hezrom e Hamul.

Tomando como ponto de partida o ano da venda de José aos midianitas, pois segundo Gn 38 (todo), foi a partir de então que nasceram, a saber, ER, Onã e Selá, filhos de Judá. Conforme Gn 38:1-2, “E aconteceu no mesmo tempo que Judá desceu de entre seus irmãos e entrou na casa de um homem de Adulão, cujo nome era Hira, E viu Judá ali a filha de um homem cananeu, cujo nome era Sua; e tomou-a por mulher, e a possuiu. E ela concebeu e deu à luz um filho, e chamou-lhe Er”.

Seria o Anno Mundi 2216, o mesmo ano da venda de José ao Egito; Judá teria se casado e gerado Er. Gênesis 38:4 nos diz que “tornou a conceber e deu à luz um filho, e chamou-lhe Onã”. Seria, portanto, possivelmente no Anno Mundi 2217. E o terceiro filho, conforme Gênesis 38:5: “E continuou ainda e deu à luz um filho, e chamou-lhe Selá; e Judá estava em Quezibe, quando ela o deu à luz”. Seria o Anno Mundi 2218.

Judá toma então Tamar por esposa para Er, conforme Gn 38:6-7: “Judá, pois, tomou uma mulher para Er, o seu primogênito, e o seu nome era Tamar. Er, porém, o primogênito de Judá, era mau aos olhos do Senhor, por isso o Senhor o matou”.

De acordo com a lei do levirato, a viúva sem filhos deveria ser entregue ao irmão mais velho para que este suscitasse filhos ao falecido. Que idade teria Er quando casou-se com Tamar? Não mais que nove ou dez anos de idade. Seria por volta do Anno Mundi 2225. Vejamos o texto: “Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou”. (Gn 38:9-10) Por curiosidade, de Onã deriva a palavra onanismo, que é sinônimo de masturbação.

Tomando-se em conta que seria o Anno Mundi 2225, mesmo ano da morte de Er, que idade teria Onã na ocasião? Não mais que oito ou nove anos.

Depois da morte de Er e Onã, faleceu também a mulher de Judá, e só depois disto Judá gerou Perez da união com Tamar, a viúva de seus dois filhos. Tamar teria permanecido reclusa, na sua condição de viúva por um ano, e no ano seguinte, por volta de Anno Mundi 2227, Judá teria mantido relações com ela e gerado no mesmo ano Perez.

Em onze anos, entre 2227 A.M., ano do nascimento de Perez, e 2238 A.M., ano em que a família de Jacó entra no Egito, Perez teria gerado dois filhos, um em cada ano, ou gêmeos no mesmo ano. Desta forma, Perez não poderia ter mais que onze anos quando entrou no Egito e seus filhos, entre um e dois anos.

Quanto à análise dos judeus sobre o fato, tanto o Talmude, quanto a Seder Olam Rabbah, fazem uma reflexão quanto a estes epsódios. A Sedder Olam afirma que Er não teria mais que sete anos quando se casou com Tamar e Perez. Segundo o Talmude, um homem é capaz de procriar a partir dos seis anos de idade.

Em termos exatos, só se conhecem com precisão as datas da venda de José aos midianitas e a data da entrada da família no Egito, período este, de vinte e dois anos. Pode-se concluir, desta forma, que quer tenham sido estes filhos gerados aos sete ou aos dez anos de idade de seus pais, uma coisa é certa, foram gerados prematuramente. Conquanto Er, Onã e Perez fossem praticamente crianças, Tamar seria certamente mais velha, mas jovem ainda.

Mesmo não sendo um costume em Israel, a Bíblia revela outros casos de nascimento prematuro, como o caso do grande rei Ezequias, rei de Judá, gerado quando Acaz, seu pai, teria 10 anos de idade. Conforme II Cr 28:1, “tinha Acaz vinte anos de idade, quando começou a reinar, e dezesseis anos reinou em Jerusalém; e não fez o que era reto aos olhos do Senhor, como Davi, seu pai”.

II Cr 28: 27 relata que “dormiu Acaz com seus pais, e o sepultaram na cidade, em Jerusalém; porém não o puseram nos sepulcros dos reis de Israel; e Ezequias, seu filho, reinou em seu lugar”. O capítulo 29 de II Crônicas nos diz que “tinha Ezequias vinte e cinco anos de idade, quando começou a reinar, e reinou vinte e nove anos em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Abia, filha de Zacarias”. Acaz era pai do rei Ezequias. Acaz morreu aos 36 anos de idade e Ezequias começou a reinar aos 25. Temos, portanto, que Acaz gerou Ezequias aos 10 anos, e quando este nasceu, Acaz teria 11 anos de idade.

A história dos netos de Judá causa-nos um certo constrangimento, de maneira que a maioria dos comentaristas bíblicos, quando verificam esta questão das idades, preferem apenas referir que eram bastante jovens os que são referenciados neste texto, mas, para evitar polêmica, que diga-se de passagem não leva a lugar nenhum, omitem as idades.

Conforme dissemos, o Talmude e os comentários de rabinos sobre a questão são mais corajosos e não se omitem sobre o assunto, pelo contrário, legislam sobre ele, porque na prática, para além da questão deste texto, o assunto é muito mais frequente do que parece, ou seja, é um tema da vida social.

Em nossa cultura ocidental não é coisa aceita, ou melhor, é crime, a relação sexual com crianças, crime hediondo. De fato, é assim que deve ser visto, mas naquele tempo não era, e as razões são as mais diversas possíveis, que vão desde a necessidade de constituir famílias numerosas, até o fortalecimento dos laços familiares e sociais.

Talvez, a condição que mais diferencie o costume daquele tempo, do crime de nosso tempo, é o fato de haver ou não consentimento do fato. Naquele tempo, ou melhor dizendo, naquela situação, houve consentimento, tanto que a decisão de casar estas crianças foi de Judá e dos pais de Tamar, que não era criança. É um arranjo que interessa a todos: a família da noiva estava casando a filha com o filho de um homem rico, que a sustentaria consignamente pela vida toda. Muitas sociedades em nossos dias fazem o mesmo, como muitos indianos, por exemplo, que tratam o casamento de seus filhos logo que nascem. Casamentos precoces acontecem também na Amazônia brasileira, como em todos os países da Africa, como nas demais partes do mundo.

As pessoas tendem a interpretar mal o assunto porque o vêm pelo prisma de crime sexual, ou seja, pela forma como interpretamos a coisa em nossos dias, e desta forma perdem o foco daquilo que está sendo relatado pelo texto bíblico. No texto bíblico há consentimento, e no crime sexual não há, e é aí que reside o teor de nossa repulsa.

Penso que pouca gente seria hoje contrária à pena de morte para pedófilos, ou para estupradores, independente da idade da vítima. Conforme o relato bíblico, na mesma época, Diná, única filha de Jacó, que teria na ocasião aproximadamente oito anos de idade, foi violada, ou seja, não houve consentimento, e o tratamento da questão por Ruben e Simeão foi diferente: o violador foi morto, não por causa da idade de Diná, mas porque não houve consentimento, nem dela, nem da família.

O segundo aspecto aspecto que causa constrangimento no texto é ver Deus matando duas crianças. Mas é exatamente isto que relata o texto: “Er, porém, o primogênito de Judá, era mau aos olhos do Senhor, por isso o Senhor o matou”. Está no texto que Deus eliminou Er e subsequentemente fez o mesmo com Onã.

Mas o que fazer? Alguém poderia dizer que o problema está na idade dos envolvidos, e que o cálculo está incorreto, que Judá já teria estes filhos antes de José ser vendido pelos irmãos, etc. Mas não é o que diz o texto bíblico, portanto, o cálculo não está errado, está certo. As idades seriam aproximadamente estas mesmas. Mas seria diferente se Er tivesse 17 anos?

Se o problema aqui é a idade, que dizer da ordem de Deus para Josué que não deixasse ninguém vivo em Jericó. Neste caso, ninguém significa que também as crianças de nove, cinco, dois anos, ou meses, ou as que estavam nas barrigas de suas mães fossem mortas. É menos ruim isto?

É um assunto interminável que se refere não à idade de Er e Onã, mas à soberania de Deus. Jesus é descendente de Judá, e o que estava em questão aqui é a eliminação de ancestrais cananitas da linhagem do Senhor. Em Mateus 1:3 lemos que : Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão”…

Selá, o filho remanescente de Judá com Sua não é mencionado. É descendente de Judá, consta na lista dos que entraram com Jacó no Egito, mas não está nas ascendência de Jesus.

Sua, mãe de Er e Onã era cananita. Tamar, de quem Gênesis não dá a ascendência, é referida no Livro de Jasher como sendo da linhagem de Elão, filho de Sem, filho de Noé. (Gênesis 10 : 22)

Dos doze filhos de Jacó, aparentemente só se pode colocar a mão no fogo por José. Judá, ponto central da questão, que conhecia a história de sua família, deliberadamente tomou como mulher a filha de um povo pagão. Mas a soberania de Deus já havia indicado na benção de Jacó para seus filhos que Judá era o herdeiro da promessa feita a Abraão. E neste caso, pouco importa o comportamento de Judá, porque Deus fez com que a história de Jesus acontecesse conforme sua determinação, e não conforme a precipitação, ou falta de responsabilidade, ou o pouco caso de Judá com o valor da benção, como foi no caso de seu tio Esaú.

10 comentários

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10 responses to “Os netos de Judá

  1. Jesse de Jesus

    Estava muito impolgado com a leitura deste trabalho. Li com bastante atenção desde o começo e me enriqueci muito. Esperava continuar aproveitando o maximo deste até aqui ótimo trabalho. Mas ao terminar este capitulo desanimei sobremaneira, pela fato da afirmativa de que os filhos de Judá casaram e geraram filhos em idades infantes.
    Que existem fenômenos de gravidez précoce não resta dúvidas, mas daí afirmar que meninos de 7, 8 ou 9 anos geraram filhos a distância é muito grande. De qualquer sorte, felicito pela estimavel iniciativa.

  2. Oi Jesse, tudo certo?
    Grato pelo seu comentário, pois eu também fiquei chocado com a conclusão quando pesquisei o assunto. Como também fiquei um bocado triste com a conclusão, pensei em não publicar, mas depois concluí que se está na Bíblia tem algum significado importante.
    Mas é preciso ver as coisas por um prisma diferente, pois o mais importante, é que se você verificar as datas, verá que elas estão corretas, portanto, as idades seriam estas mesmas.
    Pesquisei, por exemplo, o que diz o Talmude a este respeito e de acordo com ele a idade seria inclusive um pouco menor, 6 anos. Verifiquei também sobre este assunto nos dias atuais e me lembro de duas conclusões: o pai mais jovem conhecido na atualidade é um americano de 10 anos de idade e a mãe mais jovem, uma chilena que engravidou aos 4 anos e que ainda é viva.
    Bem, como nada disto tinha muita importância, procurei entender a razão pela qual este detalhe estaria exposto de forma tão destacada no Gênesis e só pude concluir que tinha a finalidade de mostrar não um hábito, pois se pode concluir que isto não se tornou um costume, mas uma coisa específica na família de Judá, uma espécie de acidente de percurso, e que isto, de certa forma, veio a enriquecer muito a vida de Jacó. Fiquei imaginando que coisa boa seria para Jacó estar cercado dos filhos, netos e estes bisnetos, um grande privilégio que Deus lhe reservou.
    Por razões que explico mais adiante, Judá já é a esta altura o herdeiro de Jacó, assim como este foi de Isaque, e este de Abraão. Ruben perdeu a primogenitura quando se deitou com a concubina de seu pai, bem como Simeão e Levi por causa da mortandade em Siquém, cabendo a Judá este direito.
    As duas coisas não têm conexão, mas agrava o fato de se dizer qualquer coisa que desabone a reputação de Judá, de quem descenderá Jesus. Mas não se pode negar o fato sobre as idades porque são estas mesmas.
    Num trabalho que estou fazendo sobre Antigo Testamento, parte de um curso, tive que ler um livro chamado Journey through the Old Testament, de autoria de Elmer Towns. Então, é claro que me interessei mais pelos assuntos polêmicos do Antigo Testamento, para ver qual a opinião do autor sobre eles, e me desagradou muito o fato de o autor pular todos eles, como este assunto dos netos de Judá, a duração do período de escravidão no Egito, as questões referentes aos capítulos 7 a 12 de Daniel que muitos reputam como escritos post-mortem, a questão da duração do reinado de Saul, ou ainda do período dos Juízes, além de muitos outros.
    Minha conclusão é que a Bíblia não tem nada a esconder. Veja a cronologia do reino dividido, por exemplo. Tenta fazer você mesmo as contas e vai verificar que elas não batem. Qual a conclusão? A Bíblia está errada? De maneira nenhuma… nós é que não entendemos as contas, porque a Bíblia está corretíssima. Mas muita gente abandona o assunto com medo de descobrir que possa haver um erro na Bíblia, e não há erro nenhum.
    Desta forma, eu te incentivo a encarar de frente esta questão que você propoz, e tentar entender por qual razão está alí. Eu temo a Deus, Jessé, e de maneira nenhuma diria qualquer coisa que pudesse ofendê-lo. Já me bastam os pecados de todos os dias.
    De qualquer forma, eu gostaria de ouvir tua opinião. Se você achar que não vale a pena manter o assunto, eu tiro do blog, até mesmo porque o blog é uma forma de revisar o trabalho que pretendo publicar ainda este ano.
    Mais uma vez grato pelo comentário.
    Um abraço.
    José Fabbri

  3. Allan

    Gostaria apenas de colocar uma “provocação”. Estamos partindo do ponto em que o nascimento dos filhos de Jacó só começou após 7 anos de trabalho para Labão. E se, de fato, ele tivesse se casado com Léia de imediato e trabalhado para pagar seu dote nos anos seguintes? Judá seria um adolescente de uns 14-16 anos nessa época. Creio que faria mais sentido. Fica essa hípótese para reflexão.

  4. Allan

    Perdão, corrigindo: os filhos de Judá teriam, talvez, essa idade.

  5. Jose Fabbri

    Oi Allan,

    A conclusão desta data está ligada ao texto de Gn 29:20-28 que diz que Jacó trabalhou sete anos antes de casar com Léia. De qualquer maneira, retroagindo as datas a partir do Êxodo, a cronologia de Jacó é bem marcada e vai nos levar à conlusão precisa do nascimento de José, e assim, fica claro que o nascimento dos filhos se deu depois dos sete anos de trabalho para Labão.

    Valeu.

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  7. teresa raquel.

    Meu Deus que absurdo,colocar Her Onã e Selá como crianças,é claro que eles não eram crianças quando Her,Onã se casaram com Tamar,criança não tem esperma e Deus não ia castigar Her e Onã se eles fossem crianças, transar com crianças seria um verdadeiro caso de pedofilia,Tamar seria criança também,Judá teria transado com uma criança? é Claro que se tratavam todos de adultos,parem de escreverem besteira.

  8. Oi Tereza, como está?

    Primeiro digo que entendo a bronca que me deu. Este texto é complicado e gera muita polêmica, de maneira que eu pretendia tirá-lo ou reescrevê-lo, então reescrevi por causa de teu comentário. Não há mudanças com relação ao que já estava escrito, apenas completei as razões que acredito tornarem o assunto mais compreensível, mostrando que o que está em foco aqui é a ascendência de Jesus. Se puder depois comenta o que acha, ou leia todo ele no site, se achar melhor. Acrescentei o que está abaixo:
    Abraço.

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    A história dos netos de Judá causa-nos um certo constrangimento, de maneira que a maioria dos comentaristas bíblicos, quando verificam esta questão das idades, preferem apenas referir que eram bastante jovens os que são referenciados neste texto, mas, para evitar polêmica, que diga-se de passagem não leva a lugar nenhum, omitem as idades.

    Conforme dissemos, o Talmude e os comentários de rabinos sobre a questão são mais corajosos e não se omitem sobre o assunto, pelo contrário, legislam sobre ele, porque na prática, para além da questão deste texto, o assunto é muito mais frequente do que parece, ou seja, é um tema da vida social.

    Em nossa cultura ocidental não é coisa aceita, ou melhor, é crime, a relação sexual com crianças, crime hediondo. De fato, é assim que deve ser visto, mas naquele tempo não era, e as razões são as mais diversas possíveis, que vão desde a necessidade de constituir famílias numerosas, até o fortalecimento dos laços familiares e sociais.

    Talvez, a condição que mais diferencie o costume daquele tempo, do crime de nosso tempo, é o fato de haver ou não consentimento do fato. Naquele tempo, ou melhor dizendo, naquela situação, houve consentimento, tanto que a decisão de casar estas crianças foi de Judá e dos pais de Tamar, que não era criança. É um arranjo que interessa a todos: a família da noiva estava casando a filha com o filho de um homem rico, que a sustentaria consignamente pela vida toda. Muitas sociedades em nossos dias fazem o mesmo, como muitos indianos, por exemplo, que tratam o casamento de seus filhos logo que nascem. Casamentos precoces acontecem também na Amazônia brasileira, como em todos os países da Africa, como nas demais partes do mundo.

    As pessoas tendem a interpretar mal o assunto porque o vêm pelo prisma de crime sexual, ou seja, pela forma como interpretamos a coisa em nossos dias, e desta forma perdem o foco daquilo que está sendo relatado pelo texto bíblico. No texto bíblico há consentimento, e no crime sexual não há, e é aí que reside o teor de nossa repulsa.

    Penso que pouca gente seria hoje contrária à pena de morte para pedófilos, ou para estupradores, independente da idade da vítima. Conforme o relato bíblico, na mesma época, Diná, única filha de Jacó, que teria na ocasião aproximadamente oito anos de idade, foi violada, ou seja, não houve consentimento, e o tratamento da questão por Ruben e Simeão foi diferente: o violador foi morto, não por causa da idade de Diná, mas porque não houve consentimento, nem dela, nem da família.

    O segundo aspecto aspecto que causa constrangimento no texto é ver Deus matando duas crianças. Mas é exatamente isto que relata o texto: “Er, porém, o primogênito de Judá, era mau aos olhos do Senhor, por isso o Senhor o matou”. Está no texto que Deus eliminou Er e subsequentemente fez o mesmo com Onã.

    Mas o que fazer? Alguém poderia dizer que o problema está na idade dos envolvidos, e que o cálculo está incorreto, que Judá já teria estes filhos antes de José ser vendido pelos irmãos, etc. Mas não é o que diz o texto bíblico, portanto, o cálculo não está errado, está certo. As idades seriam aproximadamente estas mesmas. Mas seria diferente se Er tivesse 17 anos?

    Se o problema aqui é a idade, que dizer da ordem de Deus para Josué que não deixasse ninguém vivo em Jericó. Neste caso, ninguém significa que também as crianças de nove, cinco, dois anos, ou meses, ou as que estavam nas barrigas de suas mães fossem mortas. É menos ruim isto?

    É um assunto interminável que se refere não à idade de Er e Onã, mas à soberania de Deus. Jesus é descendente de Judá, e o que estava em questão aqui é a eliminação de ancestrais cananitas da linhagem do Senhor. Em Mateus 1:3 lemos que : Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão”…

    Selá, o filho remanescente de Judá com Sua não é mencionado. É descendente de Judá, consta na lista dos que entraram com Jacó no Egito, mas não está nas ascendência de Jesus.

    Sua, mãe de Er e Onã era cananita. Tamar, de quem Gênesis não dá a ascendência, é referida no Livro de Jasher como sendo da linhagem de Elão, filho de Sem, filho de Noé. (Gênesis 10 : 22)

    Dos doze filhos de Jacó, aparentemente só se pode colocar a mão no fogo por José. Judá, ponto central da questão, que conhecia a história de sua família, deliberadamente tomou como mulher a filha de um povo pagão. Mas a soberania de Deus já havia indicado na benção de Jacó para seus filhos que Judá era o herdeiro da promessa feita a Abraão. E neste caso, pouco importa o comportamento de Judá, porque Deus fez com que a história de Jesus acontecesse conforme sua determinação, e não conforme a precipitação, ou falta de responsabilidade, ou o pouco caso de Judá com o valor da benção, como foi no caso de seu tio Esaú.

  9. Regiane

    As idades não entre José e seus irmãos não estão corretas. Lembre que Raquel não conseguia engravidar e deu sua serva Bila para Jacó, para que pudesse lhe dar filhos em seu lugar. Sendo assim, José é bem mais jovem que seus irmãos.

  10. Rafael

    Gente que havia casamentos infantil é fato! Isso meu professor de Teologia que é mestre, já nos tinha orientado.