Monthly Archives: Dezembro 2010

O Livro de Jó

Jó foi uma pessoa real, e não um mito como querem alguns, uma vez que é citado em Ezequiel 14:20 e Tiago 5:11. Viveu na terra de Uz, que segundo a maioria dos cometaristas bíblicos, seria uma região provavelmente localizada ao noroeste de Israel entre a cidade de Damasco e o Rio Eufrates. Melhor ficar com a localização dada pelo Profeta Jeremias que situa a Terra de Uz como sendo Edom, herança dos descendentes de Esaú: “Regozija-te e alegra-te, ó filha de Edom, que habitas na terra de Uz” (Lm 4:21)

Jó e seus amigos - Ilya Yefimovich-Repin

Jó faz parte dos chamados livros poéticos da Bíblia, e assim, como é próprio da alegoria poética, a narrativa explora em mínimos detalhes e à exaustão as convicções dos personagens nela retratados.
Quanto à cronologia de Jó, só podemos especular sobre o assunto, uma vez que há poucos indícios que favoreçam o reconhecimento de sua época. O livro menciona o Egito, o papiro, a quesita como dinheiro, etc. Jó 42:11 bem como Josué 24:32 fazem menção à quesita, um lingote de prata utilizado como dinheiro, o que poderia vincular o tempo de Jó a um período certamente anterior a Josué. A maioria das traduções para “quesita” se referem genericamente a “dinheiro”. Para certificar-se da tradução correta veja as referidas passagens na Concordância de Strong. Mas estes elementos não são em si suficientes para identificar seu tempo.
Um dado que poderia nos orientar quanto à data de sua existência se refere à duração de sua vida, supostamente 210 anos, conforme veremos adiante.
Se de fato Jó viveu 210 anos, poderíamos situá-lo próximo à geração de Tera, pai de Abraão. Dados que podem nos sugerir esta hipótese podem ser consultados no capítulo que trata sobre a duração das vidas dos homens antes e depois do dilúvio. Conforme analisamos neste capítulo, há, a partir do dilúvio, um decréscimo progressivo na duração da vida, de maneira que se pode estimar que nos dias de Tera, o tempo médio de vida seria de pouco mais que 200 anos.
Neste caso, Jó teria sido por bom tempo contemporâneo de Eber, Pelegue, Reú, Serugue, Naor, Tera, e do próprio Noé, através de quem poderia ter se instruído sobre Deus.
Os livros apócrifos não mencionam Jó, embora citem homônimos.
Várias teorias dissertam sobre sua vida, e naturalmente todas têm pontos fortes e fracos quanto sua validade, mas entre elas destacamos uma, da tradição judaica, por entender que se não é a expressão da verdade, tem seu valor como simbolismo didático.
A Seder Olam Rabbah, conforme vimos, interpreta as datas bíblicas desde a criação do homem até o período persa. Relatamos abaixo, seu capítulo de número 3 intitulado “Pacto e Escravidão” com o intuito tanto de mostrar seu estilo literário, quanto mostrar uma interessante analogia entre o tempo de Israel no Egito e a vida de Jó. Diz o seguinte:
“Foi dito ao nosso pai Abraão (Gn 15:13) no Pacto entre as Partes: Deves certamente saber que tua semente será estranha em terra estrangeira por quatrocentos anos. Quem é a semente? É Isaque (Gn 21:12), de quem é dito: Porque Isaque será chamado tua semente.
Sobre Isaque (Gn 25:26) é dito: Isaque tinha sessenta anos quando eles nasceram (Jacó e Esaú). Nosso patriarca Jacó (Gn 47:9) disse a Faraó: Os dias dos anos de minha caminhada são cento e trinta anos.
Fazem juntos 190 anos, e deixam 210 anos, um sinal do tempo de duração da vida de Jó (Jó 42:16), que foi nascido naquele tempo, conforme dito: Jó viveu depois disto 140 anos (Jó: 42:10) e é dito: O Eterno deu a Jó o dobro de tudo que Jó possuía. Isto significa que Jó nasceu quando Israel desceu ao Egito e morreu quando sairam.”
Quanto aos anos, o cálculo seria este: se Deus dobrou tudo quanto Jó tinha, dobrou também seu tempo de vida, e se Jó viveu depois de seu sofrimento 140 anos, logo se conclui que teria 70 anos na ocasião, totalizando, desta forma, 210 anos a sua idade ao falecer. Assim interpretam tanto a Seder Olam quanto o Talmude.
Note-se que há fundamento bíblico para tal afirmação. Gn 46, no contexto que nomeia todos os familiares de Jacó que desceram ao Egito relaciona um certo Jó, nos seguintes termos: “E os filhos de Issacar: Tola, Puva, Jó e Sinrom.” (Gn 46:13).
Grande parte das datas aceitas pelo Talmude, tanto o babilônico, quanto o de Jerusalém, são extraídas da Seder Olam, e tanto em uma quanto outra fonte se encontram comentários de diversos rabis sobre um ou outro ponto de discussão sobre Jó.
Um rabi pode contestar outro e dar um ponto de vista diferente sobre o assunto, sem que isto invalide uma opinião divergente, devendo todas as interpretações ser acatadas dentro de um espírito de liberdade de expressão. Um exemplo disto é uma afirmativa do Rabi Yose Bar Halaphta, que interpreta que o sofrimento de Jó teria durado não mais que um ano, e que este tempo seria como uma espécie de bode espiatório para distrair Satanás do plano de Deus de tirar Israel do Egito.
Tal interpretação é contestada por vários rabinos, com o argumento de que Satanás estaria de qualquer forma livre por 209 anos para se dedicar ao assunto. Seria mais válida a afirmativa, caso o ano de sofrimento de Jó fosse de alguma forma coincidente com o ano das pragas trazidas por Moisés ao Egito, mas de fato, se acatadas estas datas, o sofrimento de Jó seria coincidente com um tempo em que José estaria ainda vivo, muito tempo antes das pragas.
De qualquer maneira, a duração da vida de Jó, 210 anos, é um excelente ponto de referência para que se lembre que entre a ida de Israel para o Egito e o Êxodo, duzentos e dez anos se passaram, não quatrocentos.
O Talmude, embora não mencione os 210 anos literalmente, concorda com o cálculo. Há porém, que tanto o Talmude Babilônico, quanto o de Jerusalém reputam Jó como ficção literária.
Ezequiel entende Jó como personagem real, de acordo com Ez 14:12-14: “Veio ainda a mim a palavra do Senhor, dizendo: Filho do homem, quando uma terra pecar contra mim, se rebelando gravemente, então estenderei a minha mão contra ela, e lhe quebrarei o sustento do pão, e enviarei contra ela fome, e cortarei dela homens e animais. Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles pela sua justiça livrariam apenas as suas almas, diz o Senhor DEUS.”
Jó é também citado por Tiago que o entende como personagem real e não ficção literária: “Eis que temos por bem-aventurados os que sofreram. Ouvistes qual foi a paciência de Jó, e vistes o fim que o Senhor lhe deu; porque o Senhor é muito misericordioso e piedoso.” (Tg 5:11)”

Seria Jó o primeiro livro escrito da Bíblia?

É aceito, tanto pelo Talmude, como pela maioria dos rabinos, como também pela maioria dos teólogos cristãos que Jó seja o primeiro livro escrito da Bíblia.
Jó teria vivido num tempo que coincide com a era dos patriarcas, possivelmente próximo à geração de Abraão. A suposta idade de Jó ao falecer coincide com as idades médias da geração de Tera, pai de Abraão.
Duas passagens de Jó, a saber, Jó 1:5 e Jó 42:8 mostram um costume do tempo dos patriarcas, qual seja, oferecer sacrifícios a Deus. Também naquele tempo os chefes de família recebiam instruções de Deus, conforme ocorre em Jó 38:1 e capítulos seguintes.
Um dos maiores indícios para se afirmar a primazia de Jó é o fato de Jó ser anterior a Lei de Moisés, uma vez que todos os diálogos protagonizados por seus amigos apontam para algum suposto pecado cometido contra Deus, sem no entanto referir a qualquer lei ou mandamento de Moisés.
Não há no livro nenhuma referência a Abraão, Israel, Moisés, juízes, reis ou profetas de Israel, nem tampouco a Lei é mencionada.
Não há indícios de que a idolatria houvesse se espalhado, o que se verifica nas referência ao Deus da Criação. (Jó 27:3 e 33:4-6)
O livro mostra qual seria o panorama histórico de Jó, o conhecimento de fatos de gerações passadas, atendo-se exclusivamente a acontecimentos anteriores a Abraão, como por exemplo faz referências a fatos próximos à criação em Jó 9:-8-9; Jó 12:7-10, Jó 26:13 e Jó 38:4. Refere-se ainda insistentemente à queda do homem conforme: Jó 31:33; Jó 31:40; Jó 34:14-15. Refere-se ao dilúvio em Jó 12: 14-15 e Jó 22:15-17. Refere-se ao pacto de Noé com Deus em Jó 26:10 e Jó 38:8-11. São todas evidências de que Jó viveu neste tempo, desconhecendo a história futura.
Quanto à geografia, Jó se refere às nações antigas tais como os caldeus em Jó 1:17, Cush ou Etiópia, em Jó 28:19, Ofir em Jó 28:16, Sabeus em Jó 1:15, Sabá em Jó 6:19 e Uz, em Jó 1:1. Não se refere a povos que surgirão mais adiante na história, como filisteus, cananeus, etc.
Pessoas mencionadas no livro possuem nomes contemporâneos a Abraão, como por exemplo Tema, citado em Jó 6:19, que conforme Gênesis 25:15, era filho de Ismael.
Um dos amigos de Jó, Elifaz, era temanita, descendente de Teman, filho de Esaú, conforme se lê em Gênesis 36:15.
Bildade, o outro amigo, era suíta, descendente, portanto, de Abraão e Quetura, conforme Gênesis 25:2.
Jó 32:2 menciona Baraquel, o buzita, que conforme Gênesis 22:21 seria sobrinho de Abraão.
Veja que para quem aceita que Gênesis tenha sido escrito anteriormente a Jó, que Jó não faz nenhuma menção a Gênesis e Gênesis faz várias a Jó.
Seria, desta forma, razoável datar Jó em cerca de 2.000 AC, enquanto Moisés só nasceria 500 anos depois.

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Os Nascimentos de Josué e Calebe

Nascimento de Josue e Calebe

1527 AC – (Anno Mundi 2369) – morte de Coate
Coate nasceu hipoteticamente no Anno Mundi 2236 e viveu 133 anos, resultando sua morte no Anno Mundi 2369.

1493 AC – (Anno Mundi 2403) – morte de Anrão (pai de Moisés)
Anrão, pai de Moisés, faleceu no Anno Mundi 2403, aos cento e trinta e sete anos de idade, resultado de (2266 + 137).

1490 AC – (Anno Mundi 2406) – nascimento de Josué
Josué viveu cento e dez anos. Tomando-se como base o ano da morte de Josué, 2516 A.M., chegamos ao Anno Mundi 2406 como ano de seu nascimento. Os detalhes referentes ao cálculo da morte de Josué são tratados no período próximo aos Juizes.

1489 AC – (Anno Mundi 2407) – Moisés mata um egípcio e foge
Conforme o discurso de Estevão perante seus acusadores (At 7:23-24), Moisés aos 40 anos de idade matou um egípcio que maltratava um dos hebreus, e por esta razão teve que fugir para Midiã (Ex 2:15).

1487 AC – (Anno Mundi 2409) – nascimento de Calebe
Como veremos mais adiante, foi no Anno Mundi 2449 que Moisés enviou os espias a Canaã, e entre eles estavam Josué e Calebe.

Conforme Nm 13:2, os espias foram enviados a Canaã no ano seguinte à saída do povo do Egito, e, de acordo com Js 14:10, Calebe teria na ocasião 40 anos de idade: “E agora eis que o Senhor me conservou em vida, como disse; quarenta e cinco anos são passados, desde que o Senhor falou esta palavra a Moisés, andando Israel ainda no deserto; e agora eis que hoje tenho já oitenta e cinco anos”.

Disto se conclui o nascimento de Calebe no Anno Mundi 2409, subtraindo-se 40 de 2449, data da visita dos espias a Canaã.

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Os antecedentes da escravidão

1565 AC – (Anno Mundi 2331) – morte de Levi
Embora as datas de nascimento e morte de Levi sejam estimadas, pois não há um relato exato do ano de seu nascimento, são absolutamente corretas, pela análise do contexto de seu nascimento.

Tanto a Seder Olam Rabbah, quanto o Talmude concordam com esta data. Temos, portanto, o Anno Mundi 2231 como ano de sua morte, somados os 137 anos de idade ao ano de seu nascimento (2194 + 137).

Levi foi o último dos filhos de Israel a falecer, cento e dezessete anos antes do Exodo. Note-se que não há, até então, nenhum indício de escravidão até o fim dos dias de Levi.

Quanto aos filhos de Jacó, apenas as mortes de José e Levi são mencionadas. José foi o primeiro de todos a falecer e Levi o último.

Se não foram mencionadas as mortes dos demais, como podemos saber que estes foram o primeiro e o último? Porque esta é a forma do redator em deixar isto claro, e a Escritura veio para esclarecer e não confundir.

1534 AC – (Anno Mundi 2362) – nascimento de Miriã
Nm 26:59 se refere da seguinte forma ao nascimento de Miriã: “E o nome da mulher de Anrão era Joquebede, filha de Levi, a qual nasceu a Levi no Egito; e de Anrão ela teve Arão, e Moisés, e Miriã, irmã deles”.

Sua idade não é mencionada, embora se saiba precisamente o ano de sua morte, o mesmo ano em que faleceram Arão e Moisés, seus irmãos, no Anno Mundi 2487.

Embora Nm 26:59 a relate como terceira filha, o Talmude a classifica como sendo a mais velha dos tres irmãos, que teria na época do Exodo, oitenta e seis anos de idade, quando Arão e Moisés teriam respectivamente oitenta e tres e oitenta anos.

Em função do significado de seu nome, “amargura”, o Talmude reputa que Miriã recebeu este nome de seus pais porque nos dias de seu nascimento, os egípcios começaram a amargurar o povo de Israel. Desta forma, o Talmude faz a seguinte afirmação: que a escravidão no Egito não se deu antes da morte de Levi, nem tampouco depois do nascimento de Miriã.

Elmer L. Towns cita que “no Israel antigo, o nome de uma pessoa era suposto indicar alguma característica daquela pessoa, ou ligado a circunstâncias, ainda que triviais ou monótonas.” (Elmer L. Towns, How to Study and Teach the Bible, 1997 – disponível para download em http://www.elmertown.com – seçcão Books online)

Quando pensamos em um nome estrangeiro, como são a maioria dos nomes, é difícil refletir sobre seu significado. Poder-se-ia dar o nome Miriã a uma filha simplesmente porque é um lindo nome sem nunca pensar em seu significado. Mas imagine os pais chamarem sua filha “Amargura”, em portugues. Teria realmente de haver uma razão muito forte para isto.

1532 AC – (Anno Mundi 2364) – nascimento de Arão
Tendo-se em conta que no Anno Mundi 2448 Moisés e Arão se apresentaram perante Faraó, o que veremos mais adiante, temos, de acordo com Ex 7:7 que a idade de Arão, era de 83 anos e a de Moises, 80 anos.

Subtraindo-se 83 de 2488, temos que Arão nasceu no Anno mundi 2365.

1531 AC – (Anno Mundi 2368) – nascimento de Moisés (7 de Adar)
Da mesma forma que calculamos o nascimento de Arão, temos que o nascimento de Moisés deu-se no Anno Mundi 2368, resultado de (2448-80). A Bíblia nos fornece a data exata do nascimento de Moisés, dia 7 do mês de Adar (décimo segundo), conforme veremos por ocasião da análise da morte de Moisés no Anno Mundi 2488.

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As mortes de Jacó e José

1641 AC – (Anno Mundi 2255) – morte de Jacó
Jacó faleceu aos cento e quarenta e sete anos de idade, dezessete anos após entrar no Egito, no Anno Mundi 2255 (2108 + 147).

1630 AC – (Anno Mundi 2266) – nascimento de Anrão, pai de Moisés
Conforme Ex 6:18 eram “os filhos de Coate: Anrão, Izar, Hebrom e Uziel; e os anos da vida de Coate foram cento e trinta e três anos”.

Sabemos, portanto, apenas os anos da vida de Coate e que ele gerou a Anrão, pai de Moisés entre outros filhos. A data do nascimento de Anrão se baseia na hipótese de Coate tê-lo gerado aos trinta anos de idade, portanto, no Anno Mundi 2266.

1626 AC – (Anno Mundi 2270) – morte de Faraó, amigo de José
Gênesis não nos fornece maiores detalhes sobre a vida deste Faraó que teria confiado a José tão alto posto na administração do Egito. Pouco se sabe sobre ele e até o presente não há referência arqueológica sobre sua pessoa.

O livro de Jasher, no entanto, relata todos os faraós, desde José até os dias de Moisés, citando inclusive os nomes da maioria deles, nem todos. Não cita, por sinal, o do Faraó dos dias de Moisés.

O Faraó teria morrido no Anno Mundi 2270, trinta e nove antes da morte de José e seria substituído por Magron, seu filho, que segundo Jasher 58:4 viria a reinar por quarenta anos, durante os quais, teve em José seu grande colaborador. A escravidão de Israel viria a acontecer tempos depois da morte deste faraó.

1587 AC – (Anno Mundi 2309) – morte de José
Conforme Gn 50:22, José viveu 110 anos, que somados ao seu nascimento nos dá o Anno Mundi 2309 como ano de sua morte (2199 + 110). José faleceu cincoenta e quatro anos depois de Jacó, seu pai. Foi o primeiro, dos doze filhos de Israel a falecer.

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210 anos de permanência no Egito

Conforme veremos no exame das datas seguintes, Israel virá a permanecer no Egito por apenas 210 anos, entre o Anno Mundi 2238 (1658 AC), data de entrada da família de Jacó, e 2448 AM (1448 AC), data do Êxodo.

Quando Abraão suplicou a Deus que lhe desse um filho, relato este contido em todo o capítulo 15 de Gênesis, o Senhor lhe prometeu que sua descendência seria tão numerosa como as estrelas do céu.

Na conclusão desta conversa, Deus diz a Abraão: “Sabes, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos, Mas também eu julgarei a nação, à qual ela tem de servir, e depois sairá com grande riqueza. E tu irás a teus pais em paz; em boa velhice serás sepultado. E a quarta geração tornará para cá; porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia.”. Gn 15:13-16

Como vimos, ao tratar das datas referentes a Abraão, os quatrocetos anos referidos por Deus diziam respeito a aflição de Isaque e seus descendentes, que mesmo possuindo a terra de Canaã por promessa, viveriam nela sem de fato a possuirem, pois a terra era habitada por inúmeros povos.

Desta forma, os quatrocentos anos abrangeriam a vida de Isaque, a de Jacó, o ingresso da família no Egito, e algum tempo depois da morte de Levi, a escravidão no Egito até os dias de Moisés.

Deus afirma a Abraão, no entanto, que depois desta aflição e redução à escravidão, a quarta geração retornaria a Canaã. A qual geração se referiu o Senhor? A quarta geração contada depois de Jacó. Levi (1) gerou Coate; Coate (2) gerou Anrão, e Anrão (3) gerou Moisés (4) e seus irmãos Arão e Miriã. É à geração de Moisés que o Senhor se referia.

Moisés era descendente de Levi. Levi possuia tres filhos quando desceu com sua famíliia ao Egito, a saber, Gérson, Coate e Merari. (Ex 46:11), e veio a gerar uma filha de nome Joquebede já no tempo em que habitava no Egito, conforme Nm 26:59. Coate gerou Anrão, e Anrão gerou de Joquedebe, sua tia, Arão, Moisés e Miriã.

O redator de Gênesis nos mostra que nenhum dos doze filhos de Israel faleceu antes de José, bem como nenhum faleceu depois de Levi. Até a morte de Levi, não há relato algum sobre qualquer tipo de servidão no Egito, e entre a morte de Levi e o Exodo, passaram-se cento e dezessete anos.

Não é possível considerar que quatrocentos anos de servidão tivessem acontecido depois da morte de Levi, pois Gênesis é claro quanto às gerações que existiram desde Jacó até Moisés: Jacó gerou Levi, que gerou Coate, que gerou Anrão, que gerou Moisés e seus irmãos. Quando Levi faleceu, Coate, seu filho, teria então cerca de noventa e cinco anos de idade, e viveria mais trinta e oito anos após a morte de seu pai.

Se somássesmos quatrocentos anos após a morte de Levi, implicaria que este tempo teria que ser distribuído entre os trinta e oito anos restantes da vida de Coate, os oitenta anos de vida de Moisés quando se deu o Exodo, e a vida de Anrão. Anrão teria que ter vivido 282 anos e viveu apenas 137, conforme Ex 6:20. Temos, portanto, que a escravidão não poderia ter durado quatrocentos anos.

Quanto ao acréscimo ao final do verso 16 (“… porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia.”. Gn 15:16), a justiça foi feita aos amorreus depois do Êxodo.

Os amorreus eram descendentes de Canaã, filho de Cão, neto que Noé amaldiçoara por descobrir sua nudez perante os irmãos. Ao impedirem a passagem dos israelitas por suas terras, conforme relato de Nm 21, foram derrotados e “Assim deu-lhes Moisés, aos filhos de Gade, e aos filhos de Rúben, e à meia tribo de Manassés, filho de José, o reino de Siom, rei dos amorreus, e o reino de Ogue, rei de Basã; a terra com as suas cidades nos seus termos, e as cidades ao seu redor” (Nm 32:33)

São estas algumas considerações necessárias antes de pesquisarmos as datas que precedem o Exodo.

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Os netos de Judá

Para efeito didático, podemos constatar as idades dos filhos de Israel quando da sua chegada ao Egito: Ruben teria 46 anos; Simeão – 45, Levi – 44, Judá – 43, Dã – 43, Naftali – 42, Gade – 42, Aser – 41, Issacar – 41, Zebulon – 40, Diná – 39, José – 39 e Benjamin, o mais jovem, 30 anos. Os gêmeos, Manassés e Efraim, filhos de José, teriam 5 anos de idade.

Gênesis 46 nos dá a lista das pessoas que entraram com Jacó no Egito, de maneira que verificamos que todos os filhos de Jacó já haviam constituído famílias e possuíam filhos. Observe-se, porém, o que nos diz Gn 46:12: “E os filhos de Judá: Er, Onã, Selá, Perez e Zerá; Er e Onã, porém, morreram na terra de Canaã; e os filhos de Perez foram Hezrom e Hamul”.

Dos filhos de Judá, somente Selá, Perez e Zerá entraram com a família no Egito, uma vez que Er e Onã já haviam morrido, mas Perez, já possui na época dois filhos, o que torna Judá o único dos doze filhos de Jacó que seria avô na ocasião. Perez não teria mais que onze anos de idade na ocasião, e seus filhos Hezrom e Hamul, teriam no máximo dois e um ano respectivamente, ou a mesma idade, caso fossem gêmeos.

De acordo com Gênesis, todos os descendentes dos filhos de Jacó nasceram depois da venda de José aos midianitas. Lembremos que entre a venda de José, conforme já vimos, e a ida da família ao Egito, passaram-se apenas vinte e dois anos. Desta forma, Judá, em vinte e dois anos, gerou Er e Onã que morreram; gerou depois disto Perez, e Perez gerou Hezrom e Hamul.

Tomando como ponto de partida o ano da venda de José aos midianitas, pois segundo Gn 38 (todo), foi a partir de então que nasceram, a saber, ER, Onã e Selá, filhos de Judá. Conforme Gn 38:1-2, “E aconteceu no mesmo tempo que Judá desceu de entre seus irmãos e entrou na casa de um homem de Adulão, cujo nome era Hira, E viu Judá ali a filha de um homem cananeu, cujo nome era Sua; e tomou-a por mulher, e a possuiu. E ela concebeu e deu à luz um filho, e chamou-lhe Er”.

Seria o Anno Mundi 2216, o mesmo ano da venda de José ao Egito; Judá teria se casado e gerado Er. Gênesis 38:4 nos diz que “tornou a conceber e deu à luz um filho, e chamou-lhe Onã”. Seria, portanto, possivelmente no Anno Mundi 2217. E o terceiro filho, conforme Gênesis 38:5: “E continuou ainda e deu à luz um filho, e chamou-lhe Selá; e Judá estava em Quezibe, quando ela o deu à luz”. Seria o Anno Mundi 2218.

Judá toma então Tamar por esposa para Er, conforme Gn 38:6-7: “Judá, pois, tomou uma mulher para Er, o seu primogênito, e o seu nome era Tamar. Er, porém, o primogênito de Judá, era mau aos olhos do Senhor, por isso o Senhor o matou”.

De acordo com a lei do levirato, a viúva sem filhos deveria ser entregue ao irmão mais velho para que este suscitasse filhos ao falecido. Que idade teria Er quando casou-se com Tamar? Não mais que nove ou dez anos de idade. Seria por volta do Anno Mundi 2225. Vejamos o texto: “Então disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão, e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão. Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou”. (Gn 38:9-10) Por curiosidade, de Onã deriva a palavra onanismo, que é sinônimo de masturbação.

Tomando-se em conta que seria o Anno Mundi 2225, mesmo ano da morte de Er, que idade teria Onã na ocasião? Não mais que oito ou nove anos.

Depois da morte de Er e Onã, faleceu também a mulher de Judá, e só depois disto Judá gerou Perez da união com Tamar, a viúva de seus dois filhos. Tamar teria permanecido reclusa, na sua condição de viúva por um ano, e no ano seguinte, por volta de Anno Mundi 2227, Judá teria mantido relações com ela e gerado no mesmo ano Perez.

Em onze anos, entre 2227 A.M., ano do nascimento de Perez, e 2238 A.M., ano em que a família de Jacó entra no Egito, Perez teria gerado dois filhos, um em cada ano, ou gêmeos no mesmo ano. Desta forma, Perez não poderia ter mais que onze anos quando entrou no Egito e seus filhos, entre um e dois anos.

Quanto à análise dos judeus sobre o fato, tanto o Talmude, quanto a Seder Olam Rabbah, fazem uma reflexão quanto a estes epsódios. A Sedder Olam afirma que Er não teria mais que sete anos quando se casou com Tamar e Perez. Segundo o Talmude, um homem é capaz de procriar a partir dos seis anos de idade.

Em termos exatos, só se conhecem com precisão as datas da venda de José aos midianitas e a data da entrada da família no Egito, período este, de vinte e dois anos. Pode-se concluir, desta forma, que quer tenham sido estes filhos gerados aos sete ou aos dez anos de idade de seus pais, uma coisa é certa, foram gerados prematuramente. Conquanto Er, Onã e Perez fossem praticamente crianças, Tamar seria certamente mais velha, mas jovem ainda.

Mesmo não sendo um costume em Israel, a Bíblia revela outros casos de nascimento prematuro, como o caso do grande rei Ezequias, rei de Judá, gerado quando Acaz, seu pai, teria 10 anos de idade. Conforme II Cr 28:1, “tinha Acaz vinte anos de idade, quando começou a reinar, e dezesseis anos reinou em Jerusalém; e não fez o que era reto aos olhos do Senhor, como Davi, seu pai”.

II Cr 28: 27 relata que “dormiu Acaz com seus pais, e o sepultaram na cidade, em Jerusalém; porém não o puseram nos sepulcros dos reis de Israel; e Ezequias, seu filho, reinou em seu lugar”. O capítulo 29 de II Crônicas nos diz que “tinha Ezequias vinte e cinco anos de idade, quando começou a reinar, e reinou vinte e nove anos em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Abia, filha de Zacarias”. Acaz era pai do rei Ezequias. Acaz morreu aos 36 anos de idade e Ezequias começou a reinar aos 25. Temos, portanto, que Acaz gerou Ezequias aos 10 anos, e quando este nasceu, Acaz teria 11 anos de idade.

A história dos netos de Judá causa-nos um certo constrangimento, de maneira que a maioria dos comentaristas bíblicos, quando verificam esta questão das idades, preferem apenas referir que eram bastante jovens os que são referenciados neste texto, mas, para evitar polêmica, que diga-se de passagem não leva a lugar nenhum, omitem as idades.

Conforme dissemos, o Talmude e os comentários de rabinos sobre a questão são mais corajosos e não se omitem sobre o assunto, pelo contrário, legislam sobre ele, porque na prática, para além da questão deste texto, o assunto é muito mais frequente do que parece, ou seja, é um tema da vida social.

Em nossa cultura ocidental não é coisa aceita, ou melhor, é crime, a relação sexual com crianças, crime hediondo. De fato, é assim que deve ser visto, mas naquele tempo não era, e as razões são as mais diversas possíveis, que vão desde a necessidade de constituir famílias numerosas, até o fortalecimento dos laços familiares e sociais.

Talvez, a condição que mais diferencie o costume daquele tempo, do crime de nosso tempo, é o fato de haver ou não consentimento do fato. Naquele tempo, ou melhor dizendo, naquela situação, houve consentimento, tanto que a decisão de casar estas crianças foi de Judá e dos pais de Tamar, que não era criança. É um arranjo que interessa a todos: a família da noiva estava casando a filha com o filho de um homem rico, que a sustentaria consignamente pela vida toda. Muitas sociedades em nossos dias fazem o mesmo, como muitos indianos, por exemplo, que tratam o casamento de seus filhos logo que nascem. Casamentos precoces acontecem também na Amazônia brasileira, como em todos os países da Africa, como nas demais partes do mundo.

As pessoas tendem a interpretar mal o assunto porque o vêm pelo prisma de crime sexual, ou seja, pela forma como interpretamos a coisa em nossos dias, e desta forma perdem o foco daquilo que está sendo relatado pelo texto bíblico. No texto bíblico há consentimento, e no crime sexual não há, e é aí que reside o teor de nossa repulsa.

Penso que pouca gente seria hoje contrária à pena de morte para pedófilos, ou para estupradores, independente da idade da vítima. Conforme o relato bíblico, na mesma época, Diná, única filha de Jacó, que teria na ocasião aproximadamente oito anos de idade, foi violada, ou seja, não houve consentimento, e o tratamento da questão por Ruben e Simeão foi diferente: o violador foi morto, não por causa da idade de Diná, mas porque não houve consentimento, nem dela, nem da família.

O segundo aspecto aspecto que causa constrangimento no texto é ver Deus matando duas crianças. Mas é exatamente isto que relata o texto: “Er, porém, o primogênito de Judá, era mau aos olhos do Senhor, por isso o Senhor o matou”. Está no texto que Deus eliminou Er e subsequentemente fez o mesmo com Onã.

Mas o que fazer? Alguém poderia dizer que o problema está na idade dos envolvidos, e que o cálculo está incorreto, que Judá já teria estes filhos antes de José ser vendido pelos irmãos, etc. Mas não é o que diz o texto bíblico, portanto, o cálculo não está errado, está certo. As idades seriam aproximadamente estas mesmas. Mas seria diferente se Er tivesse 17 anos?

Se o problema aqui é a idade, que dizer da ordem de Deus para Josué que não deixasse ninguém vivo em Jericó. Neste caso, ninguém significa que também as crianças de nove, cinco, dois anos, ou meses, ou as que estavam nas barrigas de suas mães fossem mortas. É menos ruim isto?

É um assunto interminável que se refere não à idade de Er e Onã, mas à soberania de Deus. Jesus é descendente de Judá, e o que estava em questão aqui é a eliminação de ancestrais cananitas da linhagem do Senhor. Em Mateus 1:3 lemos que : Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão”…

Selá, o filho remanescente de Judá com Sua não é mencionado. É descendente de Judá, consta na lista dos que entraram com Jacó no Egito, mas não está nas ascendência de Jesus.

Sua, mãe de Er e Onã era cananita. Tamar, de quem Gênesis não dá a ascendência, é referida no Livro de Jasher como sendo da linhagem de Elão, filho de Sem, filho de Noé. (Gênesis 10 : 22)

Dos doze filhos de Jacó, aparentemente só se pode colocar a mão no fogo por José. Judá, ponto central da questão, que conhecia a história de sua família, deliberadamente tomou como mulher a filha de um povo pagão. Mas a soberania de Deus já havia indicado na benção de Jacó para seus filhos que Judá era o herdeiro da promessa feita a Abraão. E neste caso, pouco importa o comportamento de Judá, porque Deus fez com que a história de Jesus acontecesse conforme sua determinação, e não conforme a precipitação, ou falta de responsabilidade, ou o pouco caso de Judá com o valor da benção, como foi no caso de seu tio Esaú.

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A chegada de Israel ao Egito

1658 AC – (Anno Mundi 2238) – ida de Israel e sua família para o Egito
Conforme já vimos, ao constatar datas anteriores, Jacó se seus familiares desceram ao Egito no Anno Mundi 2238. A informação chave para se determinar as datas referentes ao Egito é a morte de Jacó.

Jacó nasceu no Anno Mundi 2108 e faleceu no Anno Mundi 2255 aos 147 anos de idade: (2108 + 147 = 2255). Jacó viveu seus 17 últimos anos de vida no Egito, conforme Gn 47:28. Temos, portanto, que Jacó encontrou-se com José seu filho, na ocasião, governador do Egito, no Anno Mundi 2238, resultado de (2255-17);

Sabemos que Jacó e seus filhos se mudaram para o Egito no mesmo ano em que José se revelou a seus irmãos e sabemos que quando isto aconteceu, José mencionou que já haviam se passado dois anos e fome e que mais cinco anos ainda restavam, aconselhando desta forma que seus irmãos trouxessem Jacó e o restante da família para estarem seguros no Egito, conforme o relato de Gn 45:6.

Tempos portanto, que o período de fome se iniciou no Anno Mundi 2236, terminando em 2.243 A.M.
Passaram-se vinte e dois anos entre a venda de José e a ida de Israel para o Egito. Conforme Gn 46:26, “todas as almas que vieram com Jacó ao Egito, que saíram dos seus lombos, fora as mulheres dos filhos de Jacó, todas foram sessenta e seis almas”. O capítulo 46 de Gênesis nos dá conta de nomear todas estas pessoas, setenta ao todo.

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