37 AC – (Anno Mundi 3859) – Herodes governador da Judéia

Como se sabe, Herodes era idumeu, povo que fora “judaizado”, sobretudo no período de João Hircano, que mesmo sendo gentios, eram conhecedores e obrigados aos usos e costumes religiosos de Israel.

Os idumeus são os edomitas (descendentes de Esaú) que ocupavam originalmente a área situada entre o Mar Morto e o Golfo de Eilate ou Ácaba, como dizem os árabes, e vieram a se mudar para a região mais ao norte da localização inicial, tanto por conta do exílio babilônico, que removeu muitos judeus da região, como pela invasão dos árabes nabateus sobre suas terras.

A partir de 63 AC a Judéia passou a ser administrada pelo governador romano da Síria sendo dividida em quatro tetrarquias.

Neste tempo, por seu próprio mérito, Antípatro, pai de Herodes, fez grandes conquistas pessoais, recebendo de Roma vários benefícios, entre os quais a cidadania romana, isenção de impostos e o cargo de administrador da Judéia.

Antípatro soube ao longo de sua vida granjear a simpatia dos novos senhores da terra, suprindo em tempos difíceis, e por inúmeras vezes, o exército romano, de trigo e outros víveres de primeira necessidade, tornando-se assim próximo de Pompeu, Cesar, Scauro e Marco Antonio, entre outros.

Tornou-se amigo pessoal de Julio Cesar quando este, depois da morte de Pompeu, fazia guerra contra o Egito.

Nesta ocasião Antípatro arregimentou cerca de tres mil soldados, que sob seu comando, se juntaram a Mitrídates, um dos generais de Cesar, quando este ia em seu socorro no Egito.

Os fatos atestam que Mitríades ficou a dever não só sua própria vida, como também a de seus homens a Antípatro, que num ato de bravura e astúcia os livrou de serem todos mortos em batalha. Este fato foi comunicado a Cesar, que desde então passou a dedicar-lhe grande estima. Em decorrência disto Antípatro foi nomeado administrador dos negócios e interesses da Judéia.

Hircano era neste tempo sumo sacerdote do Templo em Jerusalém e grande aliado de Antípatro. A relação de Hircano com a família de Antípatro sempre fora boa e os dois lados souberam tirar vantagens desta união. O bom entendimento entre estes dois veio a trazer grandes benefícios para Jerusalém, como por exemplo, a permissão para reconstrução dos muros da cidade e do Templo.

Por volta de 47 AC, Antípatro conseguiu nomear seu filho Fasael governador, ou tetrarca da Judéia, e Herodes, com apenas quinze anos de idade, tetrarca da Galiléia.

Josefo atesta que apesar da pouca idade Herodes já mostrava grande competência no trato com pessoas poderosas. Começa, portanto, aqui sua jornada rumo ao destino que conhecemos.

Quando encontramos Herodes nas páginas dos evangelhos a buscar Jesus ainda criança para matá-lo, ele é um homem de idade avançada já próximo de sua morte, e desta forma desconhecemos a longa trajetória que o levou ao poder, que obstante o apoio inicial que recebeu de seu pai, mais por seu mérito pessoal e a custa de muito trabalho conseguiu chegar onde chegou.

Depois da morte de Cesar, houve grandes desentendimentos no império e várias facções se formaram em busca do poder, uma delas formada por Cássio e Antônio.

Quando Cássio, nesta ocasião, recrutava soldados na Síria, houve grande problema de falta de recursos, e desta maneira toda a região foi penalizada tendo que arcar com enormes custos para pagamento do exército romano.

Mesmo assim, além do que lhes era exigido, Antípatro recomendou aos filhos Fazael e Herodes que auxiliassem Roma nesta tarefa, e desta maneira Herodes é o primeiro a suprir boa parte desta demanda, o que lhe fez cair nas graças de Cássio. Já os demais governadores que não agiram da mesma forma vieram a cair em desgraça.

Malico, que era o responsável por esta arrecadação, caiu em desgraça perante Cássio, e esteve a ponto de ser morto, só não sendo por interferência de Antípatro, o que lhe iria custar muito caro, pois este mesmo Malico veio envenená-lo tempos depois. Herodes vingaria a morte do pai.

Uma vez reunido este exército, Cássio e Marcos deram o seu comando a Herodes e o fizeram governador da Baixa Síria.

O fato é que Cássio era contrário a Marco Antônio e Augusto e veio a ser por estes derrotado. Augusto foi combater na Gália e Antônio veio para a Síria.

Herodes, que até então era aliado de Cássio, inimigo de Marco Antônio, não tardou para procurá-lo a fim de explicar-se.

Levou-lhe grande soma de dinheiro e impressionou-o de tal forma, que embora houvesse presentes muitos que acusavam Herodes de traição, Antônio sequer quis ouvi-los. Os irmãos foram confirmados tetrarcas da Judéia e muitos dos seus acusadores acabaram na prisão.

Herodes teve depois disto que lidar com uma adversidade: Antígono, que era filho de Aristóbulo II (66-63 AC) veio através de uma trama complicada a tomar o poder na Judéia com a ajuda do rei dos Partos. Fazel, irmão de Herodes, veio a ser aprisionado por Antígono e mata-se na prisão.

Diz Josefo, que uma vez no poder, Antígono mandou cortar uma orelha de Hircano, sumo sacerdote, pois a lei dos judeus não permitia que alguém que portasse algum defeito físico tivesse tal encargo, afastando assim qualquer possibilidade de o sumo sacerdote vir a ocupar também o governo da nação.

Herodes travou várias batalhas contra Antígono a fim de recuperar o governo perdido. Em meio a esta campanha veio a desposar Mariana, neta do rei Aristóbulo, conseguindo assim alguma ligação familiar com o povo judeu.

Antígono governou por pouco tempo, tendo sido preso e levado à presença de Marco Antônio, que por uma solicitação de Herodes e grande soma de dinheiro lhe mandou cortar a cabeça.

A ambição pelo poder e o medo de perdê-lo assombraram Herodes por toda sua vida. É um medo compreensível, pois governava uma sociedade totalmente segregada e contrária à presença de gentios em seu meio, e Herodes nela se infiltrara à custa do preço carríssimo da perda de liberdade do povo.

Há que se notar que há, no entanto, um precedente que ameniza sua presença no poder, que é a falta de prestígio dos asmoneus perante o povo.

A gloriosa guerra dos valorosos Macabeus terminara por legitimar, se assim se pode dizer, no trono de Davi, toda uma geração de ambiciosos que permitiram que a cultura helênica se misturasse à judaica, e o sumo sacerdócio fosse utilizado como instrumento de poder.

Aos olhos do povo, a troca dos asmoneus por Herodes foi praticamente seis por meia dúzia.

O objetivo de relatar aqui algumas informações sobre Herodes, não é outro senão tentar entender a sua personalidade, por consequência da qual, em seu último ato insano mandará matar os infantes de Belém.

Herodes mandou assassinar, depois de retomar o poder de Aristóbulo, o também homônimo Aristóbulo, irmão de sua esposa Mariana, sumo sacerdote do Templo em Jerusalém, por medo que Marco Antônio, vendo o prestígio que este tinha perante o povo, o colocasse no governo da Judéia.

Por conta deste assassinato, Marco Antônio, que já nesta altura vivia com Cleópatra, chamou Herodes para se justificar.

Conta Josefo que antes de partir ao seu encontro Herodes deixou instruções a José, seu cunhado, que tomaria conta do governo em sua ausência, que caso viesse a ser condenado, que matasse sua esposa. Suspeitava que Antônio, tendo ouvido falar da beleza ímpar de Mariana poderia condená-lo à morte para lhe tomar a mulher.

Herodes comprou mais uma vez sua inocência e na volta à Judéia ouviu boatos falsos sobre a esposa. Mandou então matar José, o cunhado que deixara no governo, por suspeitar que de alguma forma teria se tornado íntimo de Mariana, mandando prender também sua sogra por achar que ela teria estimulado a suposta traição.

No sétimo ano de governo de Herodes, ano 31 AC, mesmo ano em que se deu a batalha de Ácio entre Augusto e Antônio pelo governo de Roma, houve um grande terremoto na Judéia em que dez mil pessoas perderam a vida.

Herodes estivera então envolvido numa difícil guerra contra os árabes da qual saiu vencedor. Voltou a Jerusalém dono de um prestígio que jamais tivera entre os judeus.

Quando se soube que Augusto derrotara Marco Antônio, ninguém duvidou que seria este o fim de Herodes, uma vez que a amizade entre ele e Antônio era conhecida de todos.

Mandou matar então por precaução a Hircano, para prevenir que se caísse em desgraça com Augusto, este não o substituiria no poder.

Quando foi ter com Augusto, não sabendo que sorte o esperava, deixou seu irmão no governo, dando novamente ordens que matasse sua esposa se algo de ruim lhe acontecesse.

Encontrou-se com Augusto em Rodes, quando mais uma vez a sorte lhe sorriu. Quando era de se esperar que se desculpasse com Augusto pela traição de ter se unido a Marco Antônio, ao contrário, disse que só não tinha ido combate-lo pessoalmente ao lado de Antônio porque estava na ocasião ocupado numa guerra com os árabes, e que mesmo assim lhe enviou, conforme estava ao seu alcance na ocasião, mantimentos para seu exército, de maneira que se orgulhava de ter sido fiel ao amigo a quem devia tudo que tinha. Sendo assim, morto o amigo, ofereceu a Augusto a mesma lealdade que sempre tivera por Marco Antônio.

Augusto se impressionou muito com sua sinceridade e não só o perdoou como também o reconfirmou no reino da Judéia, vindo desde então a ser seu admirador e amigo.

Voltando cheio de glórias desta viagem, Herodes ouviu de alguns da corte uma acusação mentirosa de que sua esposa Mariana tencionava envenená-lo, o que foi suficiente para ele a mandasse matar.

Construiu depois disto em Jerusalém um circo e um anfiteatro em que eram praticados jogos em homenagem a Augusto. Esta atitude distanciou-o definitivamente do povo que era contrário a estes costumes, culminando o fato com um grupo de revoltosos decidido a matar Herodes num dia em que havia jogos. O plano foi delatado e todos foram mortos.

Josefo comenta que o delator foi então morto pela população, tendo suas carnes sido picadas e atiradas aos cães. Herodes descobriu os que o haviam feito tal coisa e mandou mata-los a todos juntamente com suas famílias.

Herodes viria a recuperar seu prestígio com o povo quando uma grande seca se abateu sobre a Palestina, de maneira que não havia comida para o povo. Mandou então comprar trigo e víveres no Egito para o povo a custa de seu próprio dinheiro, o que lhe rendeu em retorno, a gratidão dos judeus. Ajudou também da mesma forma os povos da Síria, fazendo-o admirado em todo o mundo romano, de maneira que o ódio por sua pessoa foi momentaneamente esquecido.

Herodes mandou construir muitos palácios e cidades, entre as quais, Cesaréia, em homenagem a Augusto, uma cidade magnífica que demorou doze anos para ser erguida, cujas ruínas se pode visitar ainda nos dias de hoje.

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